sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ilustres Louletanos I




José Mendes Cabeçadas Júnior (1883-1965)

José Mendes Cabeçadas Júnior nasce em Loulé, a 19 de Agosto de 1883, filho de José Mendes Cabeçadas e de Maria da Graça Guerreiro. Conclui o ensino primário em Loulé. Frequenta o Liceu de Faro durante dois anos, terminando os estudos liceais em Évora. Depois de frequentar a Escola Politécnica de Lisboa, no ano de 1902 ingressa no Regimento de Cavalaria N.º 2, Lanceiros d'El Rei. Em 1903 ingressa da Escola Naval. Em Março de 1911 casa com Maria das Dores Formosinho Vieira Cabeçadas, de quem tem quatro filhas. Ao ingressar na Escola Naval, inicia uma carreira militar que o levará até ao vice-almirantado, depois do desempenho de importantes cargos na Base Naval do Alfeite. Aspirante da Marinha em 1903, é promovido a guarda-marinha em 1908, altura em que inicia a sua primeira comissão militar integrando a Divisão Naval do Índico (Moçambique). Regressado a Portugal no ano seguinte, será promovido a segundo-tenente, patente com que participa na revolução republicana. Logo em Novembro de 1910, ocorre a sua promoção a capitão-tenente por distinção. Sucedem-se as promoções a capitão-de-fragata (1917), capitão-de-mar-e-guerra (1925), contra-almirante (1930) e, finalmente, vice-almirante (1937). Por várias vezes é chamado a desempenhar funções como capitão do porto de Vila Real de Santo António (1914; 1917; 1918:1919) e Comandante da Escola de Alunos Marinheiros do Sul (1919 e 1922). Preside ao Tribunal Militar de Marinha (1926) e ao Conselho Superior de Disciplina da Armada (1947). Serve na Direcção de Hidrografia e Navegação e, desde 1932 e ao longo de 17 anos, é Intendente da Marinha no Arsenal do Alfeite. Em Abril de 1911, Mendes Cabeçadas é iniciado na Maçonaria. Por essa altura, a Marinha está fortemente politizada, com muitos dos seus elementos pertencendo à Maçonaria e à Carbonária. O jovem tenente Cabeçadas participa numa das reuniões dos revoltosos republicanos. Na manhã do dia 4 de Outubro de 1910, de acordo com o que ficara estipulado, Mendes Cabeçadas revolta a tripulação do cruzador Adamastor disparando contra o Palácio das Necessidades. Estava, assim, dado o sinal para o início da revolta. Logo no início do sidonismo, é nomeado Governador Civil do distrito de Faro, o que voltará a suceder em 1919 (de 18-02 a 08-07) e 1923 (de 20-11 a 17-12). Como representante da Marinha, é deputado às Constituintes por Silves em 1911, sendo mais tarde eleito deputado ao Parlamento em 1915 e 1921. Pertence aos Partidos Unionista, Liberal e Nacionalista, tendo acompanhado a cisão de Cunha Leal na formação da União Liberal Republicana no início de 1926. Durante a última fase da República, a sua acção contra o domínio do Partido Democrático inicia-se em Julho de 1925 com a revolta do cruzador Vasco da Gama, sob o seu comando, na sequência da qual é preso. O objectivo é secundar a revolta dos oficiais nacionalistas presos no Forte do Bom Sucesso, em virtude da rebelião militar de 18 de Abril de 1925, chefiada por Sinel de Cordes, Raul Esteves e Filomeno da Câmara, considerada um "ensaio geral" do 28 de Maio. A partir dessa altura, Mendes Cabeçadas envolve-se directamente na preparação da revolta. De acordo com o plano, na madrugada do dia 28 de Maio de 1926, o general Gomes da Costa lança em Braga a proclamação que faz avançar o movimento, enquanto que Cabeçadas chefia a revolta militar em Lisboa. Nesse mesmo instante, porém, terminava o consenso que fizera agregar os conspiradores. Líder da componente republicana conservadora da conspiração, nesse mesmo dia (28 de Maio) Mendes Cabeçadas apresenta-se ao Presidente da República Bernardino Machado como chefe do pronunciamento que nessa manhã se declarara em Braga. Quando se dirige a Coimbra, para tomar o comando das tropas que lhe eram fiéis no Centro do país, é preso em Santarém, por ordem do ainda chefe do Governo, António Maria da Silva. Através de carta dirigida ao Presidente da República, Cabeçadas exige a demissão do governo e a nomeação de ministros que possam merecer a confiança do país. Bernardino Machado aceita a demissão do executivo. Desaparece assim, sem esboçar qualquer tipo de resistência, o último governo da I República. Antes de se demitir, o executivo ordena a libertação de Mendes Cabeçadas, uma vez que a sua "facção" constitui a única esperança de assegurar alguma continuidade à República. De facto, Cabeçadas tinha em mente um golpe para derrubar o Partido Democrático, mas sem colocar em causa o essencial do regime constitucional vigente. Após ter aceitado a demissão do governo de António Maria da Silva, o Presidente da República nomeia, a 30 de Maio de 1926, Mendes Cabeçadas como presidente do ministério, ministro da Marinha e interino de todas as pastas. Mantém a titularidade das pastas até 3-6-1926. No dia 31 de Maio de 1926, Bernardino Machado renuncia à Presidência da República, transmitindo a Mendes Cabeçadas as suas funções constitucionais. A partir dessa data, e até ao dia 17-06-1926, acumula as funções de presidente do Ministério e Chefe do Estado. O general Gomes da Costa, representante da facção militar conservadora de Sinel de Cordes, faz rapidamente saber que o governo de Cabeçadas não merece a confiança do Exército e ordena o avanço das tropas sobre Lisboa (31-5-1926). O objectivo é afastar Mendes Cabeçadas da nova cena política e, com ele, as várias correntes republicanistas que lhe tinham conferido apoio. No mesmo dia, o general Óscar Carmona adere à revolta e arranca de Évora comandando a 4.ª Divisão, com o propósito de participar no cerco à capital. Mendes Cabeçadas, por seu turno, controla as forças do Exército, da Marinha e da GNR na capital e na margem Sul. A apoiá-lo tem também os partidos e grupos republicanos bem como o movimento sindical. Ainda a 31 de Maio, convence o Partido Radical - que ocupara o Barreiro com os marinheiros do vale do Zebro e tomara conta do Ministério da Marinha e do Arsenal, apoiado pelos ferroviários do Sul e Sueste - a abandonar as suas posições. Logo de seguida, o Barreiro é ocupado militarmente e o Ministério da Marinha e o Arsenal são desalojados. Nesse mesmo dia, por acção de um dos seus homens, o tenente Carlos Vilhena, o Parlamento é encerrado e, posteriormente, dissolvido (em 9-6). A 1 de Junho de 1926 realiza-se em Coimbra uma reunião entre diferentes facções do movimento, formando-se um triunvirato composto por Mendes Cabeçadas, Gomes da Costa e Gama Ochoa. Pouco depois Gomes da Costa contestará, a partir do Entroncamento, a presença de Gama Ochoa e a ausência de Carmona. Após nova reunião ("Conferência de Sacavém", a 3 de Junho de 1926), constitui-se um segundo triunvirato formado por Mendes Cabeçadas (Presidência e Interior), Gomes da Costa (Guerra e Colónias) e Óscar Carmona (Negócios Estrangeiros). Cabeçadas, suspeito de ligações excessivas aos partidos, experimenta crescentes dificuldades na distribuição das pastas ministeriais. A inclusão de Ezequiel de Campos é o pretexto para a direita continuar a atacá-lo. Ezequiel de Campos demite-se a 5 de Junho, levando a que a esquerda republicana retire o seu apoio a Cabeçadas. A 6 de Junho, concluída a concentração de forças no Entroncamento e em Sacavém, Gomes da Costa entra triunfalmente em Lisboa à frente de 15 000 homens. A unidade entre os militares é apenas aparente. A 14 de Junho Gomes da Costa apresenta em Conselho de Ministros um projecto de revisão da Constituição. Mendes Cabeçadas recusa a proposta do general, acentuando ainda mais as divergências existentes. A 17 de Junho, o general Gomes da Costa desencadeia, a partir de Sacavém, o golpe de Estado que acaba por conduzir ao afastamento de Cabeçadas. Incapaz de congregar as várias correntes republicanas e de dominar a facção militarista e antidemocrática, Mendes Cabeçadas abandona o Governo, rendendo-se e assinando o decreto da sua própria demissão (Decreto n.º 11 738, de 19 de Junho de 1926). Empossa Gomes da Costa como presidente do ministério, transmitindo-lhe os poderes recebidos de Bernardino Machado. Depois da Presidência, Cabeçadas regressa às suas funções na Marinha. Participa em várias conspirações militares com o objectivo de derrubar o Estado Novo, como o "golpe" de 10 de Outubro de 1946 (golpe da Mealhada) ou o de Abril de 1947. Na sequência desta última intentona, é preso e julgado em Tribunal Militar - no chamado "processo da abrilada" - passando à reforma compulsiva nesse mesmo ano. A partir dessa altura, participa em várias acções oposicionistas. Em 1951 integra a comissão de candidatura do almirante Quintão Meireles às eleições presidenciais, ano em que é um dos impulsionadores da Organização Cívica Nacional. Dois anos depois, é candidato pela oposição democrática às eleições para a Assembleia Nacional e em 1955 preside ao Directório da Causa Republicana. Em 1956 preside à Frente Nacional Liberal e Democrata e no ano seguinte participa na fundação do Directório Democrato-social. Integra a comissão nacional da candidatura do general Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958 e em 1961 é um dos primeiros subscritores do Programa para a Democratização da República que receberá o apoio de antigos republicanos e seareiros e da nova geração de opositores a Salazar. Morre em Lisboa em 11 de Junho de 1965. (http://www.museu.presidencia.pt/)