quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Fado II




Maldição (Fado Cravo)


Compositores: Alfredo Duarte (Marceneiro)* e Armando Vieira Pinto


Que destino, ou maldição
Manda em nós, meu coração?
Um do outro assim perdido,
Somos dois gritos calados,
Dois fados desencontrados,
Dois amantes desunidos.

Por ti sofro e vou morrendo,
Não te encontro, nem te entendo,
Amo e odeio sem razão:
Coração... quando te cansas
Das nossas mortas esperanças,
Quando paras, coração?

Nesta luta, esta agonia,
Canto e choro de alegria,
Sou feliz e desgraçada.
Que sina a tua, meu peito,
Que nunca estás satisfeito,
Que dás tudo... e não tens nada.

Na gelada solidão,
Que tu me dás coração,
Não há vida nem há morte:
É lucidez, desatino,
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte...


* Filho de Gertrudes da Conceição e Rodrigo Duarte, ambos naturais do Cadaval, gente de origem humilde. O seu pai, mestre de corte de calçado, arranja uma colocação numa sapataria na Rua da Madalena que lhe permite alugar uma pequena casa num prédio na Travessa de Santa Quitéria, Freguesia de Santa Isabel.
Foi nessa casa que nasceu, no dia 25 de Fevereiro de 1891, o primeiro filho do casal a quem foi dado o nome ALFREDO RODRIGO DUARTE. A este filho vieram depois juntar-se mais 3: Júlio - que foi também fadista de nomeada -, Álvaro e Júlia. Alfredo Duarte frequentou a escola primária demonstrando especial aptidão para a Literatura e Gramática.
O seu gosto pelo canto veio-lhe do berço, influenciado por sua mãe. No entanto, também seu pai - que tinha pertencido à banda musical do Cadaval -, e seu avô materno, lhe transmitiram influências, especialmente este último, que tocava guitarra e cantava fados de improviso.
Rodrigo Duarte apercebendo-se da intuição para a musica de seu filho queria que ele aprendesse os rudimentos musicais. Não viveu no entanto o suficiente para ver satisfeitos os seus desejos. Decorria o ano de 1905 e Alfredo, então com 13 anos, profundamente abalado pela perda do pai, viu-se forçado a abandonar os estudos para começar a ganhar a vida, ajudando a sua mãe no sustento da casa e dos irmãos mais novos.
Arranjou o seu primeiro emprego como aprendiz de encadernador. Cultivando o gosto de representar. seguia atentamente as cegadas e é assim que simultaneamente toma mais contacto com o Fado.
Júlio Janota, um fadista improvisador com que tomou conhecimento, era mestre na profissão de marceneiro, aconselha-o a seguir o mesmo oficio, que lhe permitia auferir melhor salário e sair antes do por do sol, arranjando-lhe uma colocação, como seu aprendiz, numa oficina em Campo d'Ourique.
É num baile popular que se inica a cantar o fado, começando logo a criar nome entre a rapaziada. Graças às suas capacidades passa a ser solicitado para cantar em festas de caridade, muito usuais na época como forma de solidariedade para com os mais desafortunados. Em 1908, com dezassete anos, consegue almejar o seu grande sonho: sair numa cegada.
Noutras cegadas entrou, mas foi em "Luz e Sapiência", de Henrique Rêgo, que Alfredo grangeou a maior glória. Até ao fim dos seus dias, Alfredo Duarte ainda era capaz de recitar não só o seu papel nesta cegada, como também o papel dos outros intervenientes.
A primeira vez que vai ouvir cantar o fado em recinto para o efeito, foi na Rua do Poço dos Negros, no Beco dos Carrascos, onde actuavam conhecidos fadistas de então. Mas é no «14» do Largo do Rato, antiga casa de jogo transformada em «cabaret» quando os jogos de azar foram proibidos, que o jovem Alfredo, com cerca de 20 anos, começou a ser mais conhecido no meio fadista, sendo frequentemente convidado a cantar alguns fados, cujos versos ele mesmo improvisava.
Aqui travou conhecimento com alguns dos poetas populares e grandes fadistas de nomeada daquela época, como Britinho Estucador, Soares do Intendente, Júlio Proença Estofador, João Mulato, Chico Viana, Jorge Caldeireiro, Fernando Teles, e tantos outros, que não tardaram em ver no jovem Alfredo um verdadeiro fadista. Como manifestação desse reconhecimento, começaram a dar-lhe algumas das suas criações poéticas para que ele as cantasse.
Em 1924, Alfredo Marceneiro participa na primeira «Festa do Fado», organizada pelo poeta António Boto nos palcos do S. Luiz. Ainda em 1924, o recinto Sul-América, que se situava à Rua da Palma, num Concurso de Fados em que se apresentaram todos os grandes fadistas desse tempo, Alfredo Marceneiro arrebata o troféu de que mais se orgulhou em toda a sua vida, a "Medalha de Ouro".
Este concurso teve por júri conceituados poetas e jornalistas, sendo o primeiro prémio atribuído por unânimidade, premiando a forma correcta como dividiu os versos, quer nas orações quer na pontuação, do fado que escolheu para cantar. Esse Fado era "O REMORSO".
Em 1929 ganha a Taça de Prata, na Festa de Homenagem ao Poeta Frederico de Brito (Britinho). Nos anos 30 Alfredo Marceneiro trabalhava nas oficinas do Diamantino Tojal, situadas na Vila Berta, à Graça. Como as Construções Navais (Arsenal do Alfeite) tinham vagas para marceneiros e a féria era superior, foi contratado, tendo feito mobiliário para alguns navios e barcos de guerra. Mais tarde as Construções Navais passaram para a administração da C.U.F. pela mão do industrial Alfredo Silva.
Alfredo Marceneiro continuou a sua actividade no ofício e no Fado, sendo bastante solicitado pelos seus camaradas operários para actuar nas festas que organizavam numa delas, em Dezembro de 1937, os electricistas do Arsenal de Marinha pedem ao poeta João Linhares de Barbosa, que sabiam ter por ele grande admiração, para escrever algo em homenagem a Marceneiro.
Por alturas de 1941 o movimento operário inicia as reivindicações pelas 8 horas de trabalho diário (eram 12 horas diárias na altura). Em 1943 numa greve geral, à qual Alfredo que também adere, os grevistas são todos presos, entre eles os seus filhos Carlos e Alfredo que também eram trabalhadores nos estaleiros. Desgostoso com este facto, pura e simplesmente pediu demissão. É pois, a partir desta data, que Alfredo Marceneiro passa a viver exclusivamente de cantar o fado.Em 1946 vivia-se no rescaldo da 2ª Guerra Mundial. Nessa altura, paradoxalmente, estava-se no principio do aparecimento das casas de fado e face à crise económica resultante dessa terrível guerra, a opção pelo profissionalismo no fado tornou-lhe a vida muito difícil no início, mesmo apesar da fama que o seu nome transportava.Na Calçado de Carriche actuou no Nova Sintra, corria o ano de 1947, havendo então a tradição de se ir ao Fado fora de portas. Mais tarde, com o seu filho Rodrigo Duarte, inaugura o "Solar do Marceneiro" que, no entanto, apesar do êxito que teve , não durou muito tempo, pois Alfredo era incapaz de estar a cantar por obrigação. Aliás, como aconteceu em outras casas onde esteve contratado. No entanto, a amizade que todos os empresários por ele nutriam, levava a que a sua irreverência fosse tolerada e, assim, nunca se desvinculou de um acordo com litígio. Pode dizer-se que Marceneiro era «privativo» de todas as casas de fado.O Bairro Alto, com a abertura de diversas casas de fado, também apelidadas de casas típicas, como a Adega da Lucília ( mais tarde O Faia) de Lucília do Carmo e Alfredo de Almeida, posteriormente do filho Carlos do Carmo, a Adega Machado de Armando Machado e Maria de Lourdes Machado, a Adega Mesquita de Domingos Mesquita e mulher "Ti Adelina", a A Severa de José Barros e Maria José, a Tipóia de Adelina Ramos e o Solar da Hermínia Silva, passa a ser o bairro mais frequentado no intuíto de se ouvir cantar o fado. Em todas elas Alfredo Marceneiro proporcionou noites inesquecíveis para quem as viveu, interpretando os seus fados como só ele sabia, crescendo a sua fama sem parar. Entretanto Lisboa não pára e, noutros locais da cidade, abrem outras casas de fado que fizeram parte do roteiro de Alfredo Marceneiro, tais como a Viela com a Celeste Rodrigues e mais tarde com Sérgio, A Márcia Condessa, a Parreirinha de Alfama de Argentina Santos, A Cesária, O Timpanas da familia Forjaz, etc.
A 3 de Janeiro de 1948, no Café Luso, é consagrado Rei do Fado, numa festa que foi organizada por Filipe Pinto. Deste evento ficou uma placa de mármore a assinalar a sua consagração.
Este espectáculo contou com a participação de grandes intérpretes do fado, Amália Rodrigues, Berta Cardoso, Fernanda Baptista, Hermínia Silva, Lucília do Carmo, Carlos Ramos, Filipe Pinto e Júlio Proença, além da presença de muitos guitarristas, cançonetistas, artistas de teatro, artistas plásticos, jornalistas e personalidades de relevo da época. Alfredo Marceneiro cantou fados de sua criação e este espectáculo ficou guardado na memória de todos aqueles que nele colaboraram e a ele assistiram.

Sendo Alfredo Marceneiro conhecido e admirado em todo o país, embora praticamente nunca tenha saído de Lisboa, nunca foi antes do 25 de Abril de 1974 alvo de qualquer menção pelas autoridades então vigentes. O então Secretariado Nacional da Informação (S.N.I.) sempre o ignorou e nunca o incomodou.
Quando da sua reforma em 1963, foi-lhe concedido o complemento à pensão de "mérito artístico", por proposta do Sindicato de Artistas de Variedades. Como é de calcular uma parca quantia.
Um grupo de amigos e admiradores, quando este se reforma, decidem fazer-lhe uma Homenagem a 25 de Maio de 1963, no Teatro S. Luiz:
A MADRUGADA DO FADO Consagração e Despedida do Grande ArtistaALFREDO DUARTE MARCENEIRO
Que o Fado está na História do nosso Povo já ninguém o nega e Alfredo Marceneiro ficará para sempre a esta ligado, como previu Norberto de Araújo, quando sobre ele escreveu:
"O FADO TEM TIDO MUITAS MULHERES, ALGUMAS, MESMO, HEROÍNAS DA CANÇÃO DOLENTE E BONITA. HOMENS - SÒ UM:ALFREDO MARCENEIRO. LIGOU O PASSADO AO PRESENTE, E COM A SUA ALMA ERRANTE, LUMINOSA E INGÉNUA, COLOCOU O FADO NUM PLANO DE "AUTO DO POVO", QUE FICARÁ NA HISTÓRIA DO NOSSO TEMPO."

Alfredo Marceneiro faleceu na sua casa, pelas sete horas da manhã do dia 26 de Junho de 1982, contava 91 anos.
O seu corpo esteve em câmara ardente na Igreja de Santa Isabel, sendo apostas na urna a Bandeira Nacional e a bandeira da cidade de Lisboa por iniciativa do, então, Presidente da edilidade Engº Krus Abecassis e ainda uma guarda de honra permanente, prestada pelos Soldados da Paz do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa.
O Padre designado para fazer as exéquias do funeral de Alfredo Marceneiro desconhecia de todo a sua obra, mas impressionado com os milhares de pessoas presentes no velório, quis esclarecer-se sobre a sua figura. Levou a noite a escutar José Pracana e este tão eloquentemente lhe falou do seu querido amigo "Ti Alfredo" que, no dia do funeral, o Padre ao dizer a Missa de Corpo Presente, ele próprio com as lágrimas nos olhos, enalteceu a sua imagem de lisboeta e fadista, amante da sua cidade e da sua freguesia