sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Poesia de Bocage II




Bocage quando observava duas raparigas "demasiadamente" intimas exclamou:

MENINAS QUE SOIS TÃO BOAS,
PORQUE ESTAIS A FAZER ISSO?
PORQUE COMEIS PÃO COM PÃO,
SE É TÃO BOM PÃO COM CHOURIÇO?



Bocage (1765-1805)*


* Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, no dia 15 de Setembro de 1765. Neto de um Almirante francês que viera organizar a marinha portuguesa, filho do jurista José Luís Barbosa e de Mariana Lestoff du Bocage, cedo revelou a sua sensibilidade literária. Aos 16 anos assentou praça no regimento de infantaria de Setúbal e aos 18 alistou-se na Marinha, tendo feito o seu tirocínio em Lisboa e embarcado, posteriormente, para Goa, na qualidade de oficial.

Na sua rota para a Índia, em 1786, a bordo da nau "Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena", passou pelo Rio de Janeiro, onde se encontrava o futuro Governador de Goa.Nesta cidade, teve oportunidade de conhecer e de impressionar a sociedade, tendo vivido na Rua das Violas, cuja localização é actualmente desconhecida.

Em Outubro de 1786, chegou finalmente ao Estado da Índia. A sua estadia neste território caracterizou-se por uma profunda desadaptação. Com efeito, o clima insalubre, a vaidade e a estreiteza cultural que aí observou, conduziram a um descontentamento que retratou em alguns sonetos de carácter satírico.

Nomeado, na qualidade de segundo Tenente, para Damão, de imediato reagiu, tendo desertado. Percorreu, então, as sete partidas do mundo: Índia, China e Macau, nomeadamente. Regressou a Portugal em Agosto de 1790. Na capital, vivenciou a boémia lisboeta, frequentou os cafés que alimentavam as ideias da revolução francesa, e satirizou a sociedade portuguesa. Em 1791, publicou o seu primeiro tomo de rimas, ao qual se seguiram ainda dois, respectivamente em 1798 e em 1804. No início da década de noventa, aderiu à "Nova Arcádia", uma associação literária, controlada por Pina Manique. Os seus conflitos com os poetas que a constituíam tornaram-se frequentes, sendo visíveis em inúmeros poemas cáusticos.

Em 1797, Bocage foi preso por, na sequência de uma rusga policial, lhe terem sido detectados panfletos apologistas da revolução francesa e um poema erótico e político, intitulado "Pavorosa Ilusão da Eternidade", também conhecido por "Epístola a Marília".

Encarcerado no Limoeiro, acusado de crime de lesa-majestade, moveu influências, sendo, então, entregue à Inquisição, instituição que já não possuía o poder discricionário que anteriormente tivera. Em Fevereiro de 1798, foi entregue pelo Intendente Geral das Polícias, Pina Manique, ao Convento de S. Bento e, mais tarde, ao Hospício das Necessidades, para ser "reeducado". Naquele ano foi finalmente libertado.

Em 1800, iniciou a sua tarefa de tradutor para a Tipografia Calcográfica do Arco do Cego, superiormente dirigida pelo cientista Padre José Mariano Veloso, auferindo 12.800 réis mensalmente.

A sua saúde sempre frágil, ficou cada vez mais debilitada, devido à vida pouco regrada que levara. Em 1805, com 40 anos, faleceu na Travessa de André Valente em Lisboa, perante a comoção da população em geral. Foi sepultado na Igreja das Mercês.

A literatura portuguesa perdeu, então, um dos seus mais lídimos poetas e uma personalidade plural, que, para muitas gerações, incarnou o símbolo da irreverência, da frontalidade, da luta contra o despotismo e de um humanismo integral e paradigmático.

4 comentários:

  1. Bravo! Muito bom seu resumo... Bucage e seus admiradores agradecem.

    Continue e persevere.

    Ternura sempre!

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  2. Ótimo este texto; a começar pelo poema que é bem o traço da irreverência deste poeta gigantesco e segue muito agradável a revelar a carreira militar do gajo, suas aventuras e desventuras em terras distantes, sua vida boêmia em Lisboa e até sua reeducação mental (riso), a inquisição o recebendo, e a morte aos 40.
    Obrigado Lígia, por tão bela postagem.
    Abraço: Jefhcardoso de blog em blog (http://jefhcardoso.blogspot.com/)

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  3. Uau. Fiquei super contente em ler sobre a história deste homem ímpar com tão simples palavras. Bravo, Lígia!
    Um grande abraço,
    Joice Worm

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  4. Seu texto me impressionou tanto que o citei em meu blog.
    Espero que não se importe.
    Abraço: Jefhcardoso ( http://jefhcardoso.blogspot.com/ ).

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