sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Prosa de Mário de Sá-Carneiro I



A Confissão de Lúcio


"O poeta Mário de Sá-Carneiro publica pelos seus próprios meios (em edição de autor), em 1914, a novela A Confissão de Lúcio.
Vista por José Régio como a obra-prima daquele autor, ela constitui uma narrativa capaz de prender os leitores pelos efeitos de surpresa e suspense presentes e onde vamos encontrando uma série de tendências como o desejo de viajar, o gosto pela civilização cosmopolita, a descoberta e exploração de novos sentidos/sensações, a presença explícita de considerações do autor (de defesa ou de oposição), como uma afirmação face à moral corrente, o narcisismo e fundamentalmente as suas obsessões consubstanciadas na obsessão do suicídio, na do amor pervertido (sexualidade ambígua) e na da anormalidade e mesmo loucura.
Como todas as obras do autor, A Confissão de Lúcio, reflecte um abismo difícil de transpor entre o mundo do que é real e a idealidade.
Na verdade, o autor/narrador e personagem, demonstrando uma apetência compulsiva para se ultrapassar a si próprio como "pessoa social e existencial", pretende atingir um mundo utópico e fantástico. Este mundo, onde o raro, o singular e o maravilhoso são seus constituintes, é vislumbrado através do "delírio sensorial" fruto do consumo do ópio e do álcool que caracterizava muitos dos poetas simbolistas e decadentistas, seus contemporâneos (Baudelaire, Rimbaud, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro e outros). Desejando o impossível face a uma sociedade com regras organizadas, estes acabam por responder ao apelo do suicídio, do desaparecimento ou da loucura.
Os Leit-motiv (temas) recorrentes na literatura simbolista/decadentista, aparecem ampliados na Confissão de Lúcio, que nos apresenta um protagonista transfigurado por um destino absurdo e sem lógica que se vai deixar prender por um crime que não cometeu e que nem existiu.
Na verdade, neste homicídio (ou melhor duplo suicídio), Lúcio dispara o revólver sobre Marta (figuração de Ricardo), mas mata o seu amigo preferido Ricardo de Loureiro, que conheceu numa festa de lésbicas. Este episódio remete-nos para a alteridade que caracteriza Ricardo, na medida em que nos permite perceber, desde já, que dentro de Ricardo existe um "outro eu" que é Marta. Contudo, ao fazer desaparecer Marta (fruto de uma materialização irreal) o cenário vai pressupor um crime pelo qual Lúcio é acusado e condenado.
Assim, a morte que se abate sobre Ricardo de Loureiro vai constituir-se também no suicídio de Lúcio (seu alter-ego), enformando, então, a vocação suicida do autor, resultado de uma vida completamente desordenada. É neste momento que o absurdo transborda, na medida em que Ricardo de Loureiro é, simultaneamente, Marta e o narrador Lúcio, cuja confissão desfecha no suicídio lento mas fatal.
Dividida em duas partes distintas, a obra remete-nos, no início, para um reino utópico, um reino da alteridade do sujeito (o outro eu) experienciado na cidade de Paris e concretamente na festa mágica da Americana Fulva. A segunda parte centra-se no desenlace da intriga, através do reconhecimento da amizade entre Lúcio e Ricardo de Loureiro. Desenlace que se fará absurdo, trágico e alucinante devido às características ambíguas dessa amizade. Ricardo de Loureiro quer possuir o amigo Lúcio (seu outro eu) e desdobra-se na sua própria mulher Marta que é ele próprio. Estamos, então, perante uma aventura homossexual, uma aventura que aborda os amores, na época vistos como pervertidos, entre Lúcio e Ricardo de Loureiro." (
http://www.infopedia.pt/$a-confissao-de-lucio).

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Introdução da obra "A Confissão de Lúcio":

"Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonho: nada podendo já esperar e coisa alguma desejando - eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é, demonstrar a minha inocência.
Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples é esta.
E àqueles que, lendo o que fica exposto, me perguntarem: « Mas por que não fez a sua confissão quando era tempo? Por que não demonstrou a sua inocência ao tribunal?», a esses responderei: - A minha defesa era impossível. Ninguém me acreditaria. E fora inútil fazer-me passar por um embusteiro ou por um doido… Demais, devo confessar, após os acontecimentos em que me vira envolvido nessa época, ficara tão despedaçado que a prisão se me afigurava uma coisa sorridente. Era o esquecimento, a tranquilidade, o sono. Era um fim como qualquer outro - um termo para a minha vida devastada. Toda a minha ânsia foi pois de ver o processo terminado e começar cumprindo a minha sentença.
De resto, o meu processo foi rápido. Oh! o caso parecia bem claro… Eu nem negava nem confessava. Mas quem cala consente… E todas as simpatias estavam do meu lado.
O crime era, como devem ter dito os jornais do tempo, um «crime passional». Cherchez la femme. Depois, a vítima um poeta - um artista. A mulher romantizara-se desaparecendo. Eu era um herói, no fim de contas. E um herói com seus laivos de mistério, o que mais me aureolava. Por tudo isso, independentemente do belo discurso de defesa, o júri concedeu-me circunstâncias atenuantes. E a minha pena foi curta.
Ah! foi bem curta - sobretudo para mim… Esses dez anos esvoaram-se-me como dez meses. É que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou - apenas - os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.
Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem, têm a paz - pode ser. Entretanto, não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido.
Mas ponhamos termos aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de factos. E, para a clareza, vou-me lançando em mau caminho - parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará - estou certo - a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.
Uma coisa garanto porém: durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer de uma grande soma de factos. E são apenas fatos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca experimentei. Endoideceria, seguramente.
Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só digo a verdade. Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade - mesmo quando ela é inverosímil.
A minha confissão é um mero documento."


Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)*



* Escritor português, natural de Lisboa. A mãe morreu quando Sá-Carneiro tinha apenas dois anos e, em 1894, o pai iniciou uma vida de viagens, deixando o filho com os avós e uma ama na Quinta da Victória, em Camarate. Em 1900, entrou no liceu do Carmo, começando, então, a escrever poesia. Entretanto, o pai, de regresso dos Estados Unidos, levou-o a visitar Paris, a Suíça e a Itália. Em 1905 redigiu e imprimiu O Chinó, jornal satírico da vida escolar, que o pai o impediu de continuar, por considerar a publicação demasiado satírica. Em 1907 participou, como actor, numa récita a favor das vítimas do incêndio da Madalena, e no ano seguinte colaborou, com pequenos contos, na revista Azulejos. Transferido, em 1909, para o Liceu Camões, escreveu, em colaboração com Thomaz Cabreira Júnior (que viria a suicidar-se no ano seguinte), a peça Amizade. Impressionado com a morte do amigo, dedicou-lhe o poema A Um Suicida, 1911. Matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra em 1911, mas não chegou sequer a concluir o ano. Iniciou, entretanto, a sua amizade com Fernando Pessoa e seguiu para Paris, com o objectivo de estudar Direito na Sorbonne. Na capital francesa dedicou-se sobretudo à vida de boémia dos cafés e salas de espectáculo, onde conviveu com Santa-Rita Pintor e escreveu, de parceria com António Ponce de Leão, em 1913, a peça Alma. Em 1914, publicou A Confissão de Lúcio (novela) e Dispersão (poesia). No ano seguinte, durante uma passagem por Lisboa, começou, conjuntamente com os seus amigos, em especial Fernando Pessoa, a projectar a revista literária que se viria a publicar com o nome de Orpheu. Nesse mesmo ano, o pai partiu para a então cidade de Lourenço Marques e Sá-Carneiro voltou para Paris, regressando novamente a Portugal, com passagem por Barcelona, após a declaração da guerra. Depois de algum tempo passado na Quinta da Victória, voltou a Lisboa, onde conviveu com outros literatos nos cafés, alguns dos quais membros do grupo ligado à revista Orpheu, cujo primeiro número, saído em Abril de 1915 e imediatamente esgotado, provocou enorme escândalo no meio cultural português. No final do mesmo mês, publicou Céu em Fogo. Em Julho desse ano saiu o Orpheu 2 e, pouco depois, Sá-Carneiro regressou a Paris, de onde escreveu a Fernando Pessoa comunicando a decisão do pai de não subsidiar o número 3 da revista. Agravaram-se, por esta altura, as crises sentimentais e financeiras do poeta (já por várias vezes tinha escrito a Fernando Pessoa comunicando o seu suicídio). Sá-Carneiro suicidou-se, com vários frascos de estricnina, a 26 de Abril de 1916, num Hotel de Nice, suicídio esse descrito por José Araújo, que Mário Sá-Carneiro chamara para testemunhar a sua morte. Deixou a Fernando Pessoa a indicação de publicar a obra que dele houvesse, onde, quando e como melhor lhe parecesse. Como escritor, Mário de Sá-Carneiro demonstra, na fase inicial da sua obra, influências do decadentismo e até do saudosismo, numa estética do vago, do complexo e do metafísico. Aderiu posteriormente às correntes de vanguarda do paúlismo, do sensacionismo e do interseccionismo, apresentadas por Fernando Pessoa. O delírio e a confusão dos sentidos, marcas da sua personalidade, sensível ao ponto da alucinação, com reflexos numa imagística exuberante, definem a sua egolatria, uma procura de exprimir o inconsciente e a dispersão do eu no mundo. Este narcisismo, frustrada a satisfação das suas carências, levou-o a um sentimento de abandono e a uma poesia auto-sarcástica, expressa em poemas como Serradura, Aqueloutro ou Fim, revendo-se o poeta na imagem de um menino inútil e desajeitado, como em Caranguejola. A sua crise de personalidade, que se traduziu no frenesim da experiência sensorial e no desejo do extravagante, foi a da inadequação e da solidão, da incapacidade de viver e de sentir o que desejava (veja-se o poema Quase), que o levou a uma tentativa de dissolução do ser, consumada na morte. Para além das obras já referidas, foi autor da colectânea de contos Princípio (1912), de que se destaca O Incesto, e do volume póstumo Indícios de Ouro (1937). As suas Cartas a Fernando Pessoa foram reunidas em dois volumes, em 1958 e 1959.

3 comentários:

  1. Fez uma bela descrição neste artigo, gostei muito de ler.
    Tenha ótimo final de semana
    abraço

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  2. apesar de jovem a profundidade e sensibilidade deste tipo de leitura alimenta a minha sede de conhecimento

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  3. apesar de jovem a profundidade e sensibilidade deste tipo de leitura alimenta a minha sede de conhecimento

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