segunda-feira, 25 de maio de 2009

Poesia de Manuel Laranjeira I




Vendo a Morte


Em tudo vejo a morte! e, assim, ao ver


Que a vida já vem morta cruelmente


Logo ao surgir, começo a compreender


Como a vida se vive inutilmente...



Debalde (como um náufrago que sente,


Vendo a morte, mais fúria de viver)


Estendo os olhos mais avidamente


E as mãos prà vida... e ponho-me a morrer.



A morte! sempre a morte! em tudo a vejo


Tudo ma lembra! e invade-me o desejo


De viver toda a vida que perdi...



E não me assusta a morte! Só me assusta


Ter tido tanta fé na vida injusta ...


E não saber sequer pra que a vivi!



Manuel Laranjeira (1877-1912)*





* Manuel Laranjeira (1877-1912) nasceu em São Martinho de Moselos, conselho de Vila da Feira, de uma família modesta. É graças à herança recebida depois da morte de um tio brasileiro que Manuel Laranjeira prossegue estudos e consegue formar-se em Medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Dedica-se desde novo à poesa e ao teatro, colaborando em diversas publicações periódicas, como a Revista Nova, A Arte e O Norte. Viaja entretanto até Madrid, visitando o Museu do Prado e mostra interessa em fixar-se em Paris onde se encontrava o pintor Amadeo de Souza-Cardoso, seu amigo. Em 1908 conhece Miguel de Unamuno na cidade de Espinho, trocando com ele correspondência. Troca também correspondência com João de Barros, António Patrício, Afonso Lopes Vieira, entre outros. Em 1912, desesperado com a doença (uma sífilis nervosa), suicida-se com um tiro na cabeça. Obras: ...Amanhã. (Prólogo Dramático), A Doença da Santidade (1907), Comigo. Versos dum Solitário (1912), Naquele Engano d'Alma, Cartas (1943), Diário Íntimo (1952), A Cartilha Maternal e a Fisiologia, Dor Surda (novela, 1957), Prosas Perdidas (1958), etc.

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