segunda-feira, 18 de maio de 2009

Poesia de Florbela Espanca I




Cemitérios


Cemitério da minha terra,

Paredes a branquejar;

Que bom será lá dormir

Um bom sonho sem sonhar!...


De manhã, muito cedinho

Dormir de leve, embalada

P´las canções das raparigas

Que gentis passam na ´strada.


Cantem mais devagarinho,

Mais baixinho camponesas,

Que os vossos cantos pareçam

Tristes preces, doces rezas...


À noitinha, ao sol posto

Ouvindo as Ave-Marias!

Meu Deus, que suavidade!

Que paz de todos os dias!


Os murmúrios dos ciprestes

São doces canções aladas

Serenatas de paixão

Às almas enamoradas!


O luar imaculado

Em noites puras, serenas,

É um rio, que vai fazendo

Florir as açuçenas...


Canta triste o rouxinol

Beijam-se lindos uns goivos,

E no fundo duma campa

Dormem felizes uns noivos...


Dum túmulo a outro se fala:

"Porque morreste tão nova?

Porque tão cedo vieste

Dormir numa fria cova?"


"Eu era infeliz na terra,

Ninguém me compreendia,

Quando a minh ´alma chorava

Todos pensavam que eu ria..."


"E tu triste e tão linda

Com olhos de quem chorou?"

"Eu tive um amor na vida

Que por outra me deixou!"


"E tu?" "Sozinha no mundo

Nunca tive o que outros têm:

Pai, mãe ou um namorado...

Morri por não ter ninguém!..."


Uma diz: "Chorava um filho

Que é uma dor sem piedade",

Outra diz num vago enleio:

"Eu cá, morri de saudade!"


De todas as campas sai

Um choro que é um mistério

É então que os vivos sentem

As vozes do cemitério...


... Vão-se calando os soluços...

E as pobres mortas de dor

Vão dormindo, acalentando

Uns sonhos brancos d´amor...


Invejo estes doces sonhos

Neste terreno funéreo.

Ai quem me dera dormir

No meu lindo cemitério!


10-03-1916


Florbela Espanca (1894-1930)*


* Poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (Alentejo). Nasceu filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, criada de servir (como se dizia na época), que morreu com apenas 36 anos, «de uma doença que ninguém entendeu», mas que veio designada na certidão de óbito como nevrose. Registada como filha de pai incógnito, foi todavia educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira. Note-se como curiosidade que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, por altura da inauguração do seu busto, em Évora, e por insistência de um grupo de florbelianos, a perfilhou. Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu, em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar. Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se. Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o "Portugal Feminino". Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, "Livro de Mágoas". Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos, e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henriqueta Almeida. Em 1923, publicou o "Livro de Sóror Saudade". Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Laje, em Matosinhos. Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela suicida-se em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar». Postumamente foram publicadas as obras "Charneca em Flor" (1930), "Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli" (1930), "Juvenília" (1930), "As Mascaras do Destino" (1931, contos), e "Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título", com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos "Dominó Preto" ou "Dominó Negro", várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982. A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza. Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões. Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino). A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.

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