sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Poesia de Bocage II




Bocage quando observava duas raparigas "demasiadamente" intimas exclamou:

MENINAS QUE SOIS TÃO BOAS,
PORQUE ESTAIS A FAZER ISSO?
PORQUE COMEIS PÃO COM PÃO,
SE É TÃO BOM PÃO COM CHOURIÇO?



Bocage (1765-1805)*


* Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, no dia 15 de Setembro de 1765. Neto de um Almirante francês que viera organizar a marinha portuguesa, filho do jurista José Luís Barbosa e de Mariana Lestoff du Bocage, cedo revelou a sua sensibilidade literária. Aos 16 anos assentou praça no regimento de infantaria de Setúbal e aos 18 alistou-se na Marinha, tendo feito o seu tirocínio em Lisboa e embarcado, posteriormente, para Goa, na qualidade de oficial.

Na sua rota para a Índia, em 1786, a bordo da nau "Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena", passou pelo Rio de Janeiro, onde se encontrava o futuro Governador de Goa.Nesta cidade, teve oportunidade de conhecer e de impressionar a sociedade, tendo vivido na Rua das Violas, cuja localização é actualmente desconhecida.

Em Outubro de 1786, chegou finalmente ao Estado da Índia. A sua estadia neste território caracterizou-se por uma profunda desadaptação. Com efeito, o clima insalubre, a vaidade e a estreiteza cultural que aí observou, conduziram a um descontentamento que retratou em alguns sonetos de carácter satírico.

Nomeado, na qualidade de segundo Tenente, para Damão, de imediato reagiu, tendo desertado. Percorreu, então, as sete partidas do mundo: Índia, China e Macau, nomeadamente. Regressou a Portugal em Agosto de 1790. Na capital, vivenciou a boémia lisboeta, frequentou os cafés que alimentavam as ideias da revolução francesa, e satirizou a sociedade portuguesa. Em 1791, publicou o seu primeiro tomo de rimas, ao qual se seguiram ainda dois, respectivamente em 1798 e em 1804. No início da década de noventa, aderiu à "Nova Arcádia", uma associação literária, controlada por Pina Manique. Os seus conflitos com os poetas que a constituíam tornaram-se frequentes, sendo visíveis em inúmeros poemas cáusticos.

Em 1797, Bocage foi preso por, na sequência de uma rusga policial, lhe terem sido detectados panfletos apologistas da revolução francesa e um poema erótico e político, intitulado "Pavorosa Ilusão da Eternidade", também conhecido por "Epístola a Marília".

Encarcerado no Limoeiro, acusado de crime de lesa-majestade, moveu influências, sendo, então, entregue à Inquisição, instituição que já não possuía o poder discricionário que anteriormente tivera. Em Fevereiro de 1798, foi entregue pelo Intendente Geral das Polícias, Pina Manique, ao Convento de S. Bento e, mais tarde, ao Hospício das Necessidades, para ser "reeducado". Naquele ano foi finalmente libertado.

Em 1800, iniciou a sua tarefa de tradutor para a Tipografia Calcográfica do Arco do Cego, superiormente dirigida pelo cientista Padre José Mariano Veloso, auferindo 12.800 réis mensalmente.

A sua saúde sempre frágil, ficou cada vez mais debilitada, devido à vida pouco regrada que levara. Em 1805, com 40 anos, faleceu na Travessa de André Valente em Lisboa, perante a comoção da população em geral. Foi sepultado na Igreja das Mercês.

A literatura portuguesa perdeu, então, um dos seus mais lídimos poetas e uma personalidade plural, que, para muitas gerações, incarnou o símbolo da irreverência, da frontalidade, da luta contra o despotismo e de um humanismo integral e paradigmático.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pérolas da Publicidade




Desde sempre que o Homem se preocupou com a beleza e desde cedo descobriu também que rende muito publicitar produtos que vão de encontro a essa preocupação. Deixo-vos aqui um conjunto de “pérolas” publicitárias que remontam a 1914 e figuram na revista “Illustração Portugueza”. Espero que gostem e se divirtam tanto como eu.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ilustres Louletanos V




Joaquim Laginha Serafim (1921-1994)

Joaquim Laginha Serafim nasceu em Loulé em 1921 e faleceu em Lisboa em 1994. Licenciado em Engenharia Civil, no Instituto Superior Técnico, em 1944, foi convidado a frequentar um curso nos Estados Unidos, destinado a cientistas e engenheiros estrangeiros. Foi professor catedrático das Universidades de Coimbra e de Maputo, e recebeu o grau de Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Liége e do Rio de Janeiro. Fez parte integrante de diversas sociedades científicas espalhadas por todo o mundo sendo reconhecida a sua competência na execução de algumas das maiores barragens existentes em várias partes do mundo. Trabalhou em Marrocos, Espanha, Itália, Moçambique, Angola, Venezuela, Estados Unidos da América, Turquia, Brasil, Irão, e em muitos outros paises. Em Portugal contruíu as barragens de Castelo do Bode, Boução, Cabril, entre outras. Foi agraciado com diversos prémios, medalhas e comendas ao longo da vida, por entidades portuguesas, espanholas, inglesas e americanas. Como delegado português visitou mais de cinquenta países, onde participou em congressos e reuniões e realizou centenas de conferências.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ilustres Louletanos IV




Cândido Guerreiro (1872-1953)


Francisco Xavier Cândido Guerreiro nasceu em Alte, concelho de Loulé, em 1872. Depois de frequentar o Liceu e o Seminário experimentou diversos empregos revelando desde cedo alguma inquietação e pouca tendência para o sacerdócio. Em Loulé, foi redactor do semanário "O Algarvio". Uma vez em Beja dirigiu a Casa Pia. Mais tarde encontra-se como Fiscal de Impostos em Faro, tinha então trinta anos, quando é aconselhado pelo poeta João Lúcio, natural de Olhão, a cursar Direito. Aceita este conselho, termina o Liceu e cinco anos depois é formado em Direito pela Universidade de Coimbra. Uma vez regressado à sua terra natal é recebido com grande alarido pelos conterrâneos pois fora o primeiro Altense a formar-se. Tenta advocacia em Loulé mas não se sente satisfeito pelo que começa a exercer funções de notário enquanto a sua fama como poeta amargurado e filósofo se consolida a nível nacional. Republicano aguerrido até à altura da sua morte, será Administrador do Concelho de Loulé entre 1912 e 1918, altura em que a vila conhece grandes progressos, entre os quais a introdução da luz eléctrica. Em 1923 vai residir em Faro onde exerce notariado. Além da poesia, Cândido Guerreiro tentará igualmente destacar-se no teatro compondo o "Auto de Santa Maria", peça publicada pela comissão dos Centenários. O grande poeta Cândido Guerreiro viria a falecer em Lisboa no ano de 1953.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ilustres Louletanos III



Pedro de Freitas (1894-1987)

Pedro de Freitas nasceu em Loulé, no Largo do Carmo, em 1894. Louletano, autodidacta e escritor popular, chegou a ser apelidado de "Embaixador de Loulé", dado o seu esforço para manter vivas as tradições e feitos desta vila, hoje cidade. O primeiro contacto de Pedro de Freitas com a música, onde se destacaria maioritariamente, deu-se em 1902. Em 1903 foi viver para Faro e em 1904 para Olhão, completando a instrução primária numa e noutra localidade. Mais tarde regressa a Loulé onde se emprega como caixeiro de uma mercearia, continuando em simultâneo a aprendizagem da música na Sociedade "Artistas de Minerva". Em 1916 era ferroviário, guarda-freio dos comboios e no ano seguinte parte para a guerra, em França. Aí narra um dos episódios de guerra numa carta que alguns meses mais tarde acaba por ser publicada num jornal. A partir daí, Pedro de Freitas nunca mais deixou de escrever. Em 1926, regressado a Portugal, entra na luta pró Variante do Caminho de Ferro para Loulé, mantendo-se acerrimamente na mesma até 1946. Aquela que Pedro de Freitas descreve como a sua "maior proeza bairrista" foi, no entanto, a grande luta que travou para trazer a Loulé o Batalhão de guerra a que pertencia, o Batalhão de Sapadores de Caminhos-de-ferro, comandado pelo General Raul Esteves. Conseguiu este feito e assim honrou Loulé. A visita do Batalhão e a Festa da Mãe Soberana fizeram convergir a esta cidade milhares de pessoas. Enquanto soldado do referido Batalhão, Pedro de Freitas foi construindo uma espécie de diário que deu corpo ao seu primeiro livro intitulado "As minhas recordações da Grande Guerra". Mais tarde, em 1950, com o livro "História da Música Popular em Portugal", alcançou grande sucesso mesmo em termos internacionais. Esta última obra é também dedicada pelo autor a Loulé. Em 1961, Pedro de Freitas recebe o convite do Senhor Governador Geral da Índia Portuguesa, General Vassalo Silva, para o visitar e escrever um livro. Pedro de Freitas visita então Goa, Damão e Diu e através do que observou escreveu a obra "Eu Fui à Índia". Neste mesmo ano, enquanto membro da Comissão Cultural da "Casa do "Algarve", em Lisboa, cargo que ocuparia durante dez anos, Pedro de Freitas deslocou-se à histórica aldeia de Alvor para defender a ideia da criação da Casa - Museu do Rei D. João II. Durante a sua vida activa Pedro de Freitas escreveu quinze livros, sendo um dos mais importantes "Quadros de Loulé Antigo", monografia da sua terra natal que conheceu diversas edições sendo a primeira de 1964. Pedro de Freitas faleceu no Barreiro em 1987 com 93 anos.

sábado, 24 de outubro de 2009

A não perder - "Caim" de José Saramago




Alguns dos melhores excertos:


"[...] O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia de viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso [...]"


"[...] Não sei se fui escolhido, mas algo sei sim, algo devo ter aprendido, Quê, Que o nosso deus, o criador do céu e da terra, está rematadamente louco. Como te atreves a dizer que o senhor deus está louco, Porque só um louco sem consciência dos seus actos admitiria ser o culpado directo da morte de centenas de milhares de pessoas e comporta-se depois como se nada tivesse sucedido, salvo, afinal, que não se trate de loucura, a involuntária, a autêntica, mas de pura e simples maldade, [...]"


"[...] Então caim disse, Se bem entendi, o senhor e satã fizeram uma aposta, mas job não pode saber que foi alvo de um acordo de jogadores entre deus e o diabo, Exactamente, exclamaram os anjos em coro, A mim não me parece muito limpo da parte do senhor, disse caim, se o que ouvi é verdade, job, apesar de rico, é um homem honesto, e ainda por cima muito religioso, não cometeu nenhum crime, mas vai ser castigado sem motivo com a perda dos seus bens, talvez, como tantos dizem, o senhor seja justo, mas a mim não me parece, faz-me recordar sempre o que aconteceu a abraão a quem deus, para o pôr à prova, ordenou que matasse o seu filho isaac, em minha opinião, se o senhor não se fia das pessoas que crêem nele, então não vejo por que tenham essas pessoas de fiar-se no senhor, [...]"


(entre muitos outros...)

Leitura Obrigatória!


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Poesia de Bocage I




Oh retrato da Morte, oh Noite amiga

Oh retrato da Morte, oh Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga.

E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.


Bocage (1765-1805)*

* Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, no dia 15 de Setembro de 1765. Neto de um Almirante francês que viera organizar a marinha portuguesa, filho do jurista José Luís Barbosa e de Mariana Lestoff du Bocage, cedo revelou a sua sensibilidade literária. Aos 16 anos assentou praça no regimento de infantaria de Setúbal e aos 18 alistou-se na Marinha, tendo feito o seu tirocínio em Lisboa e embarcado, posteriormente, para Goa, na qualidade de oficial.


Na sua rota para a Índia, em 1786, a bordo da nau "Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena", passou pelo Rio de Janeiro, onde se encontrava o futuro Governador de Goa.Nesta cidade, teve oportunidade de conhecer e de impressionar a sociedade, tendo vivido na Rua das Violas, cuja localização é actualmente desconhecida.


Em Outubro de 1786, chegou finalmente ao Estado da Índia. A sua estadia neste território caracterizou-se por uma profunda desadaptação. Com efeito, o clima insalubre, a vaidade e a estreiteza cultural que aí observou, conduziram a um descontentamento que retratou em alguns sonetos de carácter satírico.


Nomeado, na qualidade de segundo Tenente, para Damão, de imediato reagiu, tendo desertado. Percorreu, então, as sete partidas do mundo: Índia, China e Macau, nomeadamente. Regressou a Portugal em Agosto de 1790. Na capital, vivenciou a boémia lisboeta, frequentou os cafés que alimentavam as ideias da revolução francesa, e satirizou a sociedade portuguesa. Em 1791, publicou o seu primeiro tomo de rimas, ao qual se seguiram ainda dois, respectivamente em 1798 e em 1804. No início da década de noventa, aderiu à "Nova Arcádia", uma associação literária, controlada por Pina Manique. Os seus conflitos com os poetas que a constituíam tornaram-se frequentes, sendo visíveis em inúmeros poemas cáusticos.


Em 1797, Bocage foi preso por, na sequência de uma rusga policial, lhe terem sido detectados panfletos apologistas da revolução francesa e um poema erótico e político, intitulado "Pavorosa Ilusão da Eternidade", também conhecido por "Epístola a Marília".


Encarcerado no Limoeiro, acusado de crime de lesa-majestade, moveu influências, sendo, então, entregue à Inquisição, instituição que já não possuía o poder discricionário que anteriormente tivera. Em Fevereiro de 1798, foi entregue pelo Intendente Geral das Polícias, Pina Manique, ao Convento de S. Bento e, mais tarde, ao Hospício das Necessidades, para ser "reeducado". Naquele ano foi finalmente libertado.


Em 1800, iniciou a sua tarefa de tradutor para a Tipografia Calcográfica do Arco do Cego, superiormente dirigida pelo cientista Padre José Mariano Veloso, auferindo 12.800 réis mensalmente.


A sua saúde sempre frágil, ficou cada vez mais debilitada, devido à vida pouco regrada que levara. Em 1805, com 40 anos, faleceu na Travessa de André Valente em Lisboa, perante a comoção da população em geral. Foi sepultado na Igreja das Mercês.


A literatura portuguesa perdeu, então, um dos seus mais lídimos poetas e uma personalidade plural, que, para muitas gerações, incarnou o símbolo da irreverência, da frontalidade, da luta contra o despotismo e de um humanismo integral e paradigmático.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ilustres Louletanos II





José António Madeira (1896-1976)


José António Madeira nasceu em Loulé em 1896 e nesta localidade faleceu em 1976. Engenheiro geógrafo e astrónomo, matriculou-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra em 1916. No ano seguinte foi admitido na Escola de Guerra, no curso de Artilharia de Campanha. Em 1922 voltou a frequentar a Faculdade supra referida e aí se licenciou em Ciências Matemáticas, incluindo igualmente o curso de Engenheiro geógrafo. Na Faculdade de Letras faz também as cadeiras de História Geral da Civilização, Estética e História de Arte. Em 1925 é requisitado ao Ministério de Guerra pelo Ministério da Agricultura para prestar serviços como Engenheiro geógrafo. No entanto, no ano seguinte inicia uma brilhante carreira como astrónomo, sendo nomeado para o Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra. Embora não fosse um político, concordou em aceitar o cargo de secretário do seu conterrâneo Engenheiro Duarte Pacheco, quando este foi ministro da Instrução Pública. Mais tarde, no estrangeiro, foi membro da Missão Portuguesa para observação do eclipse total, no Norte da Inglaterra; bolseiro da Junta de Educação Nacional nos Observatórios Astronómicos de Greenwich e Paris; bolseiro do Instituto para a Alta Cultura nos mesmos Observatórios. Paralelamente, José António Madeira realizava investigação sobre diversos assuntos relacionados com o Algarve, vindo a ser dirigente da "Casa do Algarve". Facultou à posterioridade uma vasta bibliografia de cariz científico e ainda referente ao Algarve enquanto região turística. Colaborou com o jornal "O Algarve". Foi agraciado com a Ordem Militar de Cristo; Ordem Militar de Avis e Comenda da Instrução Pública. José António Madeira doou os seus livros à Biblioteca da sua terra natal, doação acompanhada de carta dirigida ao então Presidente da Câmara Municipal de Loulé.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ilustres Louletanos I




José Mendes Cabeçadas Júnior (1883-1965)

José Mendes Cabeçadas Júnior nasce em Loulé, a 19 de Agosto de 1883, filho de José Mendes Cabeçadas e de Maria da Graça Guerreiro. Conclui o ensino primário em Loulé. Frequenta o Liceu de Faro durante dois anos, terminando os estudos liceais em Évora. Depois de frequentar a Escola Politécnica de Lisboa, no ano de 1902 ingressa no Regimento de Cavalaria N.º 2, Lanceiros d'El Rei. Em 1903 ingressa da Escola Naval. Em Março de 1911 casa com Maria das Dores Formosinho Vieira Cabeçadas, de quem tem quatro filhas. Ao ingressar na Escola Naval, inicia uma carreira militar que o levará até ao vice-almirantado, depois do desempenho de importantes cargos na Base Naval do Alfeite. Aspirante da Marinha em 1903, é promovido a guarda-marinha em 1908, altura em que inicia a sua primeira comissão militar integrando a Divisão Naval do Índico (Moçambique). Regressado a Portugal no ano seguinte, será promovido a segundo-tenente, patente com que participa na revolução republicana. Logo em Novembro de 1910, ocorre a sua promoção a capitão-tenente por distinção. Sucedem-se as promoções a capitão-de-fragata (1917), capitão-de-mar-e-guerra (1925), contra-almirante (1930) e, finalmente, vice-almirante (1937). Por várias vezes é chamado a desempenhar funções como capitão do porto de Vila Real de Santo António (1914; 1917; 1918:1919) e Comandante da Escola de Alunos Marinheiros do Sul (1919 e 1922). Preside ao Tribunal Militar de Marinha (1926) e ao Conselho Superior de Disciplina da Armada (1947). Serve na Direcção de Hidrografia e Navegação e, desde 1932 e ao longo de 17 anos, é Intendente da Marinha no Arsenal do Alfeite. Em Abril de 1911, Mendes Cabeçadas é iniciado na Maçonaria. Por essa altura, a Marinha está fortemente politizada, com muitos dos seus elementos pertencendo à Maçonaria e à Carbonária. O jovem tenente Cabeçadas participa numa das reuniões dos revoltosos republicanos. Na manhã do dia 4 de Outubro de 1910, de acordo com o que ficara estipulado, Mendes Cabeçadas revolta a tripulação do cruzador Adamastor disparando contra o Palácio das Necessidades. Estava, assim, dado o sinal para o início da revolta. Logo no início do sidonismo, é nomeado Governador Civil do distrito de Faro, o que voltará a suceder em 1919 (de 18-02 a 08-07) e 1923 (de 20-11 a 17-12). Como representante da Marinha, é deputado às Constituintes por Silves em 1911, sendo mais tarde eleito deputado ao Parlamento em 1915 e 1921. Pertence aos Partidos Unionista, Liberal e Nacionalista, tendo acompanhado a cisão de Cunha Leal na formação da União Liberal Republicana no início de 1926. Durante a última fase da República, a sua acção contra o domínio do Partido Democrático inicia-se em Julho de 1925 com a revolta do cruzador Vasco da Gama, sob o seu comando, na sequência da qual é preso. O objectivo é secundar a revolta dos oficiais nacionalistas presos no Forte do Bom Sucesso, em virtude da rebelião militar de 18 de Abril de 1925, chefiada por Sinel de Cordes, Raul Esteves e Filomeno da Câmara, considerada um "ensaio geral" do 28 de Maio. A partir dessa altura, Mendes Cabeçadas envolve-se directamente na preparação da revolta. De acordo com o plano, na madrugada do dia 28 de Maio de 1926, o general Gomes da Costa lança em Braga a proclamação que faz avançar o movimento, enquanto que Cabeçadas chefia a revolta militar em Lisboa. Nesse mesmo instante, porém, terminava o consenso que fizera agregar os conspiradores. Líder da componente republicana conservadora da conspiração, nesse mesmo dia (28 de Maio) Mendes Cabeçadas apresenta-se ao Presidente da República Bernardino Machado como chefe do pronunciamento que nessa manhã se declarara em Braga. Quando se dirige a Coimbra, para tomar o comando das tropas que lhe eram fiéis no Centro do país, é preso em Santarém, por ordem do ainda chefe do Governo, António Maria da Silva. Através de carta dirigida ao Presidente da República, Cabeçadas exige a demissão do governo e a nomeação de ministros que possam merecer a confiança do país. Bernardino Machado aceita a demissão do executivo. Desaparece assim, sem esboçar qualquer tipo de resistência, o último governo da I República. Antes de se demitir, o executivo ordena a libertação de Mendes Cabeçadas, uma vez que a sua "facção" constitui a única esperança de assegurar alguma continuidade à República. De facto, Cabeçadas tinha em mente um golpe para derrubar o Partido Democrático, mas sem colocar em causa o essencial do regime constitucional vigente. Após ter aceitado a demissão do governo de António Maria da Silva, o Presidente da República nomeia, a 30 de Maio de 1926, Mendes Cabeçadas como presidente do ministério, ministro da Marinha e interino de todas as pastas. Mantém a titularidade das pastas até 3-6-1926. No dia 31 de Maio de 1926, Bernardino Machado renuncia à Presidência da República, transmitindo a Mendes Cabeçadas as suas funções constitucionais. A partir dessa data, e até ao dia 17-06-1926, acumula as funções de presidente do Ministério e Chefe do Estado. O general Gomes da Costa, representante da facção militar conservadora de Sinel de Cordes, faz rapidamente saber que o governo de Cabeçadas não merece a confiança do Exército e ordena o avanço das tropas sobre Lisboa (31-5-1926). O objectivo é afastar Mendes Cabeçadas da nova cena política e, com ele, as várias correntes republicanistas que lhe tinham conferido apoio. No mesmo dia, o general Óscar Carmona adere à revolta e arranca de Évora comandando a 4.ª Divisão, com o propósito de participar no cerco à capital. Mendes Cabeçadas, por seu turno, controla as forças do Exército, da Marinha e da GNR na capital e na margem Sul. A apoiá-lo tem também os partidos e grupos republicanos bem como o movimento sindical. Ainda a 31 de Maio, convence o Partido Radical - que ocupara o Barreiro com os marinheiros do vale do Zebro e tomara conta do Ministério da Marinha e do Arsenal, apoiado pelos ferroviários do Sul e Sueste - a abandonar as suas posições. Logo de seguida, o Barreiro é ocupado militarmente e o Ministério da Marinha e o Arsenal são desalojados. Nesse mesmo dia, por acção de um dos seus homens, o tenente Carlos Vilhena, o Parlamento é encerrado e, posteriormente, dissolvido (em 9-6). A 1 de Junho de 1926 realiza-se em Coimbra uma reunião entre diferentes facções do movimento, formando-se um triunvirato composto por Mendes Cabeçadas, Gomes da Costa e Gama Ochoa. Pouco depois Gomes da Costa contestará, a partir do Entroncamento, a presença de Gama Ochoa e a ausência de Carmona. Após nova reunião ("Conferência de Sacavém", a 3 de Junho de 1926), constitui-se um segundo triunvirato formado por Mendes Cabeçadas (Presidência e Interior), Gomes da Costa (Guerra e Colónias) e Óscar Carmona (Negócios Estrangeiros). Cabeçadas, suspeito de ligações excessivas aos partidos, experimenta crescentes dificuldades na distribuição das pastas ministeriais. A inclusão de Ezequiel de Campos é o pretexto para a direita continuar a atacá-lo. Ezequiel de Campos demite-se a 5 de Junho, levando a que a esquerda republicana retire o seu apoio a Cabeçadas. A 6 de Junho, concluída a concentração de forças no Entroncamento e em Sacavém, Gomes da Costa entra triunfalmente em Lisboa à frente de 15 000 homens. A unidade entre os militares é apenas aparente. A 14 de Junho Gomes da Costa apresenta em Conselho de Ministros um projecto de revisão da Constituição. Mendes Cabeçadas recusa a proposta do general, acentuando ainda mais as divergências existentes. A 17 de Junho, o general Gomes da Costa desencadeia, a partir de Sacavém, o golpe de Estado que acaba por conduzir ao afastamento de Cabeçadas. Incapaz de congregar as várias correntes republicanas e de dominar a facção militarista e antidemocrática, Mendes Cabeçadas abandona o Governo, rendendo-se e assinando o decreto da sua própria demissão (Decreto n.º 11 738, de 19 de Junho de 1926). Empossa Gomes da Costa como presidente do ministério, transmitindo-lhe os poderes recebidos de Bernardino Machado. Depois da Presidência, Cabeçadas regressa às suas funções na Marinha. Participa em várias conspirações militares com o objectivo de derrubar o Estado Novo, como o "golpe" de 10 de Outubro de 1946 (golpe da Mealhada) ou o de Abril de 1947. Na sequência desta última intentona, é preso e julgado em Tribunal Militar - no chamado "processo da abrilada" - passando à reforma compulsiva nesse mesmo ano. A partir dessa altura, participa em várias acções oposicionistas. Em 1951 integra a comissão de candidatura do almirante Quintão Meireles às eleições presidenciais, ano em que é um dos impulsionadores da Organização Cívica Nacional. Dois anos depois, é candidato pela oposição democrática às eleições para a Assembleia Nacional e em 1955 preside ao Directório da Causa Republicana. Em 1956 preside à Frente Nacional Liberal e Democrata e no ano seguinte participa na fundação do Directório Democrato-social. Integra a comissão nacional da candidatura do general Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958 e em 1961 é um dos primeiros subscritores do Programa para a Democratização da República que receberá o apoio de antigos republicanos e seareiros e da nova geração de opositores a Salazar. Morre em Lisboa em 11 de Junho de 1965. (http://www.museu.presidencia.pt/)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Prosa de Mário de Sá-Carneiro I



A Confissão de Lúcio


"O poeta Mário de Sá-Carneiro publica pelos seus próprios meios (em edição de autor), em 1914, a novela A Confissão de Lúcio.
Vista por José Régio como a obra-prima daquele autor, ela constitui uma narrativa capaz de prender os leitores pelos efeitos de surpresa e suspense presentes e onde vamos encontrando uma série de tendências como o desejo de viajar, o gosto pela civilização cosmopolita, a descoberta e exploração de novos sentidos/sensações, a presença explícita de considerações do autor (de defesa ou de oposição), como uma afirmação face à moral corrente, o narcisismo e fundamentalmente as suas obsessões consubstanciadas na obsessão do suicídio, na do amor pervertido (sexualidade ambígua) e na da anormalidade e mesmo loucura.
Como todas as obras do autor, A Confissão de Lúcio, reflecte um abismo difícil de transpor entre o mundo do que é real e a idealidade.
Na verdade, o autor/narrador e personagem, demonstrando uma apetência compulsiva para se ultrapassar a si próprio como "pessoa social e existencial", pretende atingir um mundo utópico e fantástico. Este mundo, onde o raro, o singular e o maravilhoso são seus constituintes, é vislumbrado através do "delírio sensorial" fruto do consumo do ópio e do álcool que caracterizava muitos dos poetas simbolistas e decadentistas, seus contemporâneos (Baudelaire, Rimbaud, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro e outros). Desejando o impossível face a uma sociedade com regras organizadas, estes acabam por responder ao apelo do suicídio, do desaparecimento ou da loucura.
Os Leit-motiv (temas) recorrentes na literatura simbolista/decadentista, aparecem ampliados na Confissão de Lúcio, que nos apresenta um protagonista transfigurado por um destino absurdo e sem lógica que se vai deixar prender por um crime que não cometeu e que nem existiu.
Na verdade, neste homicídio (ou melhor duplo suicídio), Lúcio dispara o revólver sobre Marta (figuração de Ricardo), mas mata o seu amigo preferido Ricardo de Loureiro, que conheceu numa festa de lésbicas. Este episódio remete-nos para a alteridade que caracteriza Ricardo, na medida em que nos permite perceber, desde já, que dentro de Ricardo existe um "outro eu" que é Marta. Contudo, ao fazer desaparecer Marta (fruto de uma materialização irreal) o cenário vai pressupor um crime pelo qual Lúcio é acusado e condenado.
Assim, a morte que se abate sobre Ricardo de Loureiro vai constituir-se também no suicídio de Lúcio (seu alter-ego), enformando, então, a vocação suicida do autor, resultado de uma vida completamente desordenada. É neste momento que o absurdo transborda, na medida em que Ricardo de Loureiro é, simultaneamente, Marta e o narrador Lúcio, cuja confissão desfecha no suicídio lento mas fatal.
Dividida em duas partes distintas, a obra remete-nos, no início, para um reino utópico, um reino da alteridade do sujeito (o outro eu) experienciado na cidade de Paris e concretamente na festa mágica da Americana Fulva. A segunda parte centra-se no desenlace da intriga, através do reconhecimento da amizade entre Lúcio e Ricardo de Loureiro. Desenlace que se fará absurdo, trágico e alucinante devido às características ambíguas dessa amizade. Ricardo de Loureiro quer possuir o amigo Lúcio (seu outro eu) e desdobra-se na sua própria mulher Marta que é ele próprio. Estamos, então, perante uma aventura homossexual, uma aventura que aborda os amores, na época vistos como pervertidos, entre Lúcio e Ricardo de Loureiro." (
http://www.infopedia.pt/$a-confissao-de-lucio).

¨¨¨¨

Introdução da obra "A Confissão de Lúcio":

"Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonho: nada podendo já esperar e coisa alguma desejando - eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é, demonstrar a minha inocência.
Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples é esta.
E àqueles que, lendo o que fica exposto, me perguntarem: « Mas por que não fez a sua confissão quando era tempo? Por que não demonstrou a sua inocência ao tribunal?», a esses responderei: - A minha defesa era impossível. Ninguém me acreditaria. E fora inútil fazer-me passar por um embusteiro ou por um doido… Demais, devo confessar, após os acontecimentos em que me vira envolvido nessa época, ficara tão despedaçado que a prisão se me afigurava uma coisa sorridente. Era o esquecimento, a tranquilidade, o sono. Era um fim como qualquer outro - um termo para a minha vida devastada. Toda a minha ânsia foi pois de ver o processo terminado e começar cumprindo a minha sentença.
De resto, o meu processo foi rápido. Oh! o caso parecia bem claro… Eu nem negava nem confessava. Mas quem cala consente… E todas as simpatias estavam do meu lado.
O crime era, como devem ter dito os jornais do tempo, um «crime passional». Cherchez la femme. Depois, a vítima um poeta - um artista. A mulher romantizara-se desaparecendo. Eu era um herói, no fim de contas. E um herói com seus laivos de mistério, o que mais me aureolava. Por tudo isso, independentemente do belo discurso de defesa, o júri concedeu-me circunstâncias atenuantes. E a minha pena foi curta.
Ah! foi bem curta - sobretudo para mim… Esses dez anos esvoaram-se-me como dez meses. É que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou - apenas - os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.
Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem, têm a paz - pode ser. Entretanto, não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido.
Mas ponhamos termos aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de factos. E, para a clareza, vou-me lançando em mau caminho - parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará - estou certo - a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.
Uma coisa garanto porém: durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer de uma grande soma de factos. E são apenas fatos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca experimentei. Endoideceria, seguramente.
Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só digo a verdade. Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade - mesmo quando ela é inverosímil.
A minha confissão é um mero documento."


Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)*



* Escritor português, natural de Lisboa. A mãe morreu quando Sá-Carneiro tinha apenas dois anos e, em 1894, o pai iniciou uma vida de viagens, deixando o filho com os avós e uma ama na Quinta da Victória, em Camarate. Em 1900, entrou no liceu do Carmo, começando, então, a escrever poesia. Entretanto, o pai, de regresso dos Estados Unidos, levou-o a visitar Paris, a Suíça e a Itália. Em 1905 redigiu e imprimiu O Chinó, jornal satírico da vida escolar, que o pai o impediu de continuar, por considerar a publicação demasiado satírica. Em 1907 participou, como actor, numa récita a favor das vítimas do incêndio da Madalena, e no ano seguinte colaborou, com pequenos contos, na revista Azulejos. Transferido, em 1909, para o Liceu Camões, escreveu, em colaboração com Thomaz Cabreira Júnior (que viria a suicidar-se no ano seguinte), a peça Amizade. Impressionado com a morte do amigo, dedicou-lhe o poema A Um Suicida, 1911. Matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra em 1911, mas não chegou sequer a concluir o ano. Iniciou, entretanto, a sua amizade com Fernando Pessoa e seguiu para Paris, com o objectivo de estudar Direito na Sorbonne. Na capital francesa dedicou-se sobretudo à vida de boémia dos cafés e salas de espectáculo, onde conviveu com Santa-Rita Pintor e escreveu, de parceria com António Ponce de Leão, em 1913, a peça Alma. Em 1914, publicou A Confissão de Lúcio (novela) e Dispersão (poesia). No ano seguinte, durante uma passagem por Lisboa, começou, conjuntamente com os seus amigos, em especial Fernando Pessoa, a projectar a revista literária que se viria a publicar com o nome de Orpheu. Nesse mesmo ano, o pai partiu para a então cidade de Lourenço Marques e Sá-Carneiro voltou para Paris, regressando novamente a Portugal, com passagem por Barcelona, após a declaração da guerra. Depois de algum tempo passado na Quinta da Victória, voltou a Lisboa, onde conviveu com outros literatos nos cafés, alguns dos quais membros do grupo ligado à revista Orpheu, cujo primeiro número, saído em Abril de 1915 e imediatamente esgotado, provocou enorme escândalo no meio cultural português. No final do mesmo mês, publicou Céu em Fogo. Em Julho desse ano saiu o Orpheu 2 e, pouco depois, Sá-Carneiro regressou a Paris, de onde escreveu a Fernando Pessoa comunicando a decisão do pai de não subsidiar o número 3 da revista. Agravaram-se, por esta altura, as crises sentimentais e financeiras do poeta (já por várias vezes tinha escrito a Fernando Pessoa comunicando o seu suicídio). Sá-Carneiro suicidou-se, com vários frascos de estricnina, a 26 de Abril de 1916, num Hotel de Nice, suicídio esse descrito por José Araújo, que Mário Sá-Carneiro chamara para testemunhar a sua morte. Deixou a Fernando Pessoa a indicação de publicar a obra que dele houvesse, onde, quando e como melhor lhe parecesse. Como escritor, Mário de Sá-Carneiro demonstra, na fase inicial da sua obra, influências do decadentismo e até do saudosismo, numa estética do vago, do complexo e do metafísico. Aderiu posteriormente às correntes de vanguarda do paúlismo, do sensacionismo e do interseccionismo, apresentadas por Fernando Pessoa. O delírio e a confusão dos sentidos, marcas da sua personalidade, sensível ao ponto da alucinação, com reflexos numa imagística exuberante, definem a sua egolatria, uma procura de exprimir o inconsciente e a dispersão do eu no mundo. Este narcisismo, frustrada a satisfação das suas carências, levou-o a um sentimento de abandono e a uma poesia auto-sarcástica, expressa em poemas como Serradura, Aqueloutro ou Fim, revendo-se o poeta na imagem de um menino inútil e desajeitado, como em Caranguejola. A sua crise de personalidade, que se traduziu no frenesim da experiência sensorial e no desejo do extravagante, foi a da inadequação e da solidão, da incapacidade de viver e de sentir o que desejava (veja-se o poema Quase), que o levou a uma tentativa de dissolução do ser, consumada na morte. Para além das obras já referidas, foi autor da colectânea de contos Princípio (1912), de que se destaca O Incesto, e do volume póstumo Indícios de Ouro (1937). As suas Cartas a Fernando Pessoa foram reunidas em dois volumes, em 1958 e 1959.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Poesia de Florbela Espanca IV


Escultura de Florbela Espanca no Parque dos Poetas, Oeiras

Noite Trágica


O pavor e a angústia andam dançando…

Um sino grita endechas de poentes…

Na meia-noite d´hoje, soluçando,

Que presságios sinistros e dolentes!…


Tenho medo da noite!… Padre nosso

Que estais no céu… O que minh´alma teme!

Tenho medo da noite!… Que alvoroço

Anda nesta alma enquanto o sino geme!


Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!

A quanta dor a nossa dor resiste

Em noite assim que a própria dor parece…


Ó noite imensa, ó noite do Calvário,

Leva contigo envolto no sudário

Da tua dor a dor que me não ´squece!


Florbela Espanca (1894-1930)*


* Poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (Alentejo). Nasceu filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, criada de servir (como se dizia na época), que morreu com apenas 36 anos, «de uma doença que ninguém entendeu», mas que veio designada na certidão de óbito como nevrose. Registada como filha de pai incógnito, foi todavia educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira. Note-se como curiosidade que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, por altura da inauguração do seu busto, em Évora, e por insistência de um grupo de florbelianos, a perfilhou. Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu, em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar. Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se. Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o "Portugal Feminino". Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, "Livro de Mágoas". Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos, e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henriqueta Almeida. Em 1923, publicou o "Livro de Sóror Saudade". Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Laje, em Matosinhos. Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela suicida-se em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar». Postumamente foram publicadas as obras "Charneca em Flor" (1930), "Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli" (1930), "Juvenília" (1930), "As Mascaras do Destino" (1931, contos), e "Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título", com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos "Dominó Preto" ou "Dominó Negro", várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982. A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza. Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões. Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino). A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Poesia de Florbela Espanca III



À morte

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.


Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.


Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!


Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!


Florbela Espanca (1894-1930)*


* Poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (Alentejo). Nasceu filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, criada de servir (como se dizia na época), que morreu com apenas 36 anos, «de uma doença que ninguém entendeu», mas que veio designada na certidão de óbito como nevrose. Registada como filha de pai incógnito, foi todavia educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira. Note-se como curiosidade que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, por altura da inauguração do seu busto, em Évora, e por insistência de um grupo de florbelianos, a perfilhou. Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu, em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar. Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se. Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o "Portugal Feminino". Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, "Livro de Mágoas". Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos, e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henriqueta Almeida. Em 1923, publicou o "Livro de Sóror Saudade". Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Laje, em Matosinhos. Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela suicida-se em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar». Postumamente foram publicadas as obras "Charneca em Flor" (1930), "Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli" (1930), "Juvenília" (1930), "As Mascaras do Destino" (1931, contos), e "Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título", com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos "Dominó Preto" ou "Dominó Negro", várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982. A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza. Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões. Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino). A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Poesia de Antero de Quental II




Lacrimae Rerum

Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,

Quantas vezes tenho eu interrogado

Teu verbo, teu oráculo sagrado,

Confidente e intérprete da Sorte!


Aonde são teus sóis, como corte

De almas inquietas, que conduz o Fado?

E o homem porque vaga desolado

E em vão busca a certeza que o conforte?


Mas, na pompa de imenso funeral,

Muda, a noite, sinistra e triunfal,

Passa volvendo as horas vagarosas...


É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;

E, perdido num sonho imenso, escuto

O suspiro das coisas tenebrosas...


Antero de Quental (1842-1891)*

* O nome de Antero de Quental (Ponta Delgada, 18/IV/1842 - 11/IX/1891, ib.) tornou-se no símbolo de uma geração (a Geração de 70 ou a Geração de Antero) e é referência obrigatória na poesia, no ensaio filosófico e literário, no jornalismo, mas também nas lutas pela liberdade de pensamento e pela justiça social, onde se afirmou como ideólogo destacado.
Oriundo de uma das mais antigas famílias de colonizadores micaelenses, alinhada nos sectores liberais da sociedade, Antero continuou essa tradição, a exemplo do avô, André da Ponte de Quental, signatário da Constituição de 1822, e do pai, Fernando de Quental, um dos "7 500 bravos do Mindelo".
Desembarcado em Lisboa aos 10 anos de idade, para estudar no colégio de António Feliciano de Castilho, veio a ingressar na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1859, tornando-se rapidamente no líder dos estudantes e seu porta-voz, sendo o autor de vários manifestos contra o conservadorismo intelectual e sócio-político do tempo. Para esse prestígio contribuíam os poemas e artigos de crítica literária e política que ia escrevendo para os jornais e revistas coimbrãs: "A influência da Mulher na civilização", "A ilustração e o operário", "A indiferença em política", "O sentimento da imortalidade". Os Sonetos de Antero, o seu primeiro livro de poesia, data de 1860, e em 1865 publica Odes Modernas, obra por si caracterizada como "a voz da Revolução", resultante da aliança entre o naturalismo hegeliano e o humanismo radical francês de Michelet, Renan e Proudhon. É decisiva a importância das Odes Modernas no panorama literário português, pois a sua edição marca, entre nós, o advento da poesia moderna e está na origem da nossa maior polémica literária de sempre (durou cerca de 6 meses, com mais de 40 opúsculos) a “Questão Coimbra” ou do “Bom Senso e Bom Gosto”, o título da violenta carta-panfleto de resposta à crítica provocatória feita à Escola de Coimbra por A.F. Castilho, que personificava o tradicionalismo retrógrado e ultra-romântico. Manuel Bandeira, o grande poeta brasileiro, escreverá em 1942: "Costuma apontar-se o Eça como o modernizador da prosa portuguesa. Basta, porém, a carta "Bom Senso e Bom Gosto" para provar que se houve reforma da prosa portuguesa, ela já estava evidente no famoso escrito de Antero".
Após a licenciatura, e atraído pelos ideais socialistas de Proudhon, sobretudo, pensa alistar-se nos exércitos de Garibaldi, mas acaba por aprender a arte de tipógrafo, na Imprensa Nacional, deslocando-se depois a Paris, em 1867, para aí exercer o oficio e familiarizar-se com os problemas do proletariado que, no nosso país, longe da industrialização, ainda eram desconhecidos. Durante essa estada, traumatizante e de curta duração, chegou a frequentar aulas no Collège de France. De regresso a Lisboa é convidado pelo partido de Pi y Margall, após o triunfo da revolução republicana em Espanha, para colaborar num jornal democrático e iberista. Escreve então “Portugal perante a Revolução de Espanha”, onde critica duramente a centralização política, defendendo que só através de uma federação republicana democrática se poderia encontrar solução para os males da Península.
Em 1868 viaja para a América do Norte (E.U.A. e Canadá) e, no regresso, fica a residir com Batalha Reis num andar da Travessa do Guarda-Mór (actual Rua do Diário de Notícias), o "Cenáculo", como era conhecido entre os amigos: Oliveira Martins, Eça de Queirós, Manuel de Arriaga, José Fontana, Ramalho Ortigão, entre outros. Inicia então (1870) uma intensa actividade política e social. Colabora na fundação de associações operárias e na introdução, em Portugal, de uma secção da Associação Internacional dos Trabalhadores; publica folhetos de propaganda. Nas palavras de Eduardo Lourenço: "Ninguém entre nós pôs mais paixão no propósito de decifrar e ao mesmo tempo emendar o destino português do que Antero”.
O jornalismo também o atraía, tendo sido um dos directores do República - Jornal da Democracia Portuguesa. Em 1872 publicou anonimamente o folheto “O que é a Internacional”, destinado a angariar fundos para a criação de um novo jornal, O Pensamento Social, que dirige de parceria com Oliveira Martins.
Todavia, o período mais estimulante da sua vida pública foi o que culminou com a organização, junto com Batalha Reis, das Conferências do Casino, que se inauguraram em 22-V-1871, no Casino Lisbonense. A sua finalidade era a reflexão sobre as condições políticas, religiosas e económicas da sociedade portuguesa no contexto europeu, porque "não podia viver e desenvolver-se um povo isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo", lia-se no programa, redigido por Antero. A mais célebre das conferências é a sua: “Causas da decadência dos povos peninsulares”, que foi imediatamente impressa e se tornou no seu mais conhecido texto em prosa. Para ele, a decadência das nações peninsulares, tão prósperas nos séculos XV e XVI, era devida a três causas de diversa natureza: moral, política e económica. A primeira tinha a ver com a transformação pós-Concílio de Trento do Cristianismo, "que é sobretudo um sentimento", no Catolicismo, "que é principalmente uma instituição". Um vive da fé, o outro do dogmatismo e da disciplina cega, que levou à Inquisição. A segunda, atribuiu-a ao Absolutismo, tão nefasto para a vida política e social como o Catolicismo para a Igreja. A terceira causa (sem discutir o carácter heróico das Descobertas) tinha a ver com as conquistas longínquas que levaram à decadência económica da Metrópole, com largas camadas da população a abandonar os campos com o olho nas riquezas da Índia: "Somos uma raça decaída por termos rejeitado o espírito moderno; regenerar-nos-emos abraçando francamente este espírito. O seu nome é Revolução [...] Se o Cristianismo foi a revolução do mundo antigo, a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno". Nunca em Portugal se fora tão longe na denúncia das consequências do poder temporal da Igreja, e por isso as conferências acabaram por ser proibidas através de portaria real. Da agitação que se seguiu a este atentado às liberdades, consagradas mas não respeitadas, resultou o queda do governo que as suprimira.
Mas nunca a acção política impediu Antero de continuar a vida literária. Em 1872 editam-se Primaveras Românticas - Versos dos 20 anos e Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa. Dois anos depois manifesta-se a primeira crise de uma doença nunca completamente diagnosticada, que o vai impedir de se consagrar continuadamente a qualquer actividade. Ainda assim, fundou em 1875, com Batalha Reis, a Revista Ocidental, que visava a aproximação dos povos peninsulares. Durou apenas seis meses, pois a ideia que presidiu à sua concepção surgiu adiantada no tempo, embora os laços entre intelectuais das duas nações se tivessem então estreitado de modo muito significativo.
Como a medicina nacional (Sousa Martins, Curry Cabral) não conseguisse atinar com o seu mal, decide ir a Paris consultar o célebre médico Charcot, que lhe receita uma cura num estabelecimento termal dos arredores de Paris, em 1878 e 1879.
De volta a Lisboa, e sentindo algumas melhoras, retoma a actividade política e aceita candidatar-se como deputado pelo Partido Socialista nas eleições gerais de 1879 e 1880, embora não alimentando esperanças de vir a ser eleito.
No ano seguinte, após ter adoptado as filhas do seu grande amigo de Coimbra, Germano Meireles, falecido em 1878 (Albertina, de 3 anos, e Beatriz, de ano e meio), decide fixar residência em Vila do Conde, onde irá permanecer 10 anos, os mais calmos e literariamente mais produtivos da sua vida. É lá que escreve os últimos sonetos, reflexo do espiritualismo que lhe permitira ultrapassar a crise pessimista: "Voz interior", "Solemnia Verba", "Na Mão de Deus", entre outros, do último ciclo dos Sonetos Completos, editados em 1886 e que Unamuno considerou "um dos mais altos expoentes da poesia universal, que viverão enquanto viva for a memória das gentes". Para António Sérgio, os Sonetos constituem “o mais alto, luminoso cume a que subiu a poesia no nosso país”, enquanto José Régio considerará os Sonetos “não só um livro único entre nós, como um dos mais belos que possa escrever um poeta por igual rodeado de lucidez crítica e uma imaginação metafísica”. Antero classificou-os como “a verdadeira poesia do futuro, fora das tendências da literatura sua contemporânea”.
A nova orientação de pensamento demonstrada nos últimos poemas e em A Filosofia da Natureza, dos Naturalistas (1886) surge exposta de modo inequívoco no ensaio filosófico Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX, escrito a pedido do amigo Eça de Queirós, então director da Revista de Portugal e aí publicado nos primeiros meses de 1890. Neste estudo, o mais importante que legou à cultura portuguesa, o seu pensamento evoluiu no sentido de um novo espiritualismo, contra o positivismo e os materialismos da época. Na opinião de Jaime Cortesão, trata-se de “páginas das mais belas que jamais se escreveram em língua portuguesa” e que Joaquim de Carvalho definiu como “uma obra onde a beleza moral ofusca a própria beleza literária”. É também em 1890 que se situa a sua última intervenção política, após o Ultimatum Inglês, quando o país se levantou contra a humilhação da Grã-Bretanha. Nesse contexto nasceu no Porto um projecto nacionalista - A Liga Patriótica do Norte - cujos promotores foram a Vila do Conde convidá-lo para Presidente. O movimento em breve se extinguiu, devido a rivalidades partidárias, e com ele a última ilusão de Antero. Surge então o projecto de se fixar definitivamente em Ponta Delgada, juntamente com as filhas adoptivas, tendo embarcado em 5-VI-1891. As primeiras cartas aos amigos são optimistas, mas em breve o seu estado de saúde se agrava. No dia 11 de Setembro, à hora do crepúsculo, após ter comprado um revólver, arma que usou pela primeira vez, Antero suicida-se, no Largo de São Francisco, junto ao Convento da Esperança. Havia escrito na carta autobiográfica enviada a Wilhelm Storck, o tradutor alemão dos Sonetos, em Maio de 1887: “Morrerei, depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais íntimas aspirações da alma humana e, como diziam os antigos, na paz do Senhor - Assim o espero”. (Ana Maria Almeida Martins)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Poesia de Mário de Sá-Carneiro IV




Dispersão


Perdi-me dentro de mim

Porque eu era labirinto,

E hoje, quando me sinto,

É com saudades de mim.


Passei pela minha vida

Um astro doido a sonhar.

Na ânsia de ultrapassar,

Nem dei pela minha vida...


Para mim é sempre ontem,

Não tenho amanhã nem hoje:

O tempo que aos outros foge

Cai sobre mim feito ontem.


(O Domingo de Paris

Lembra-me o desaparecido

Que sentia comovido

Os Domingos de Paris:


Porque um domingo é família,

É bem-estar, é singeleza,

E os que olham a beleza

Não têm bem-estar nem família).


O pobre moço das ânsias...

Tu, sim, tu eras alguém!

E foi por isso também

Que te abismaste nas ânsias.


A grande ave dourada

Bateu asas para os céus,

Mas fechou-se saciada

Ao ver que ganhava os céus.


Como se chora um amante,

Assim me choro a mim mesmo:

Eu fui amante inconstante

Que se traiu a si mesmo.


Não sinto o espaço que encerro

Nem as linhas que projecto:

Se me olho a um espelho, erro-

Não me acho no que projecto.


Regresso dentro de mim,

Mas nada me fala, nada!

Tenho a alma amortalhada,

Sequinha, dentro de mim.


Não perdi a minha alma,

Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,

A morte da minha alma.


Saudosamente recordo

Uma gentil companheira

Que na minha vida inteira

Eu nunca vi...Mas recordo


A sua boca doirada

E o seu corpo esmaecido,

Em um hálito perdido

Que vem na tarde doirada.


(As minhas grandes saudades

São do que nunca enlacei.

Ai, como eu tenho saudades

Dos sonhos que não sonhei!...)


E sinto que a minha morte -

Minha dispersão total -

Existe lá longe, ao norte,

Numa grande capital.


Vejo o meu último dia

Pintado em rolos de fumo,

E todo azul-de-agonia

Em sombra e além me sumo.


Ternura feita saudade,

Eu beijo as minhas mãos brancas...

Sou amor e piedade

Em face dessas mãos brancas...


Tristes mãos longas e lindas

Que eram feitas para se dar...

Ninguém mas quis apertar...

Tristes mãos longas e lindas...


E tenho pena de mim,

Pobre menino ideal...

Que me faltou afinal?

Um elo? Um rastro?...Ai de mim!...


Desceu-me n'alma o crepúsculo;

Eu fui alguém que passou.

Serei, mas já não sou;

Não vivo, durmo o crepúsculo.


Álcool dum sono outonal

Me penetrou vagamente

A difundir-me dormente

Em uma bruma outonal.


Perdi a morte e a vida,

E louco, não enlouqueço...

A hora foge vivida,

Eu sigo-a mas permaneço...

................

................

Castelos desmantelados,

Leões alados sem juba...

................

................


Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)*

* Escritor português, natural de Lisboa. A mãe morreu quando Sá-Carneiro tinha apenas dois anos e, em 1894, o pai iniciou uma vida de viagens, deixando o filho com os avós e uma ama na Quinta da Victória, em Camarate. Em 1900, entrou no liceu do Carmo, começando, então, a escrever poesia. Entretanto, o pai, de regresso dos Estados Unidos, levou-o a visitar Paris, a Suíça e a Itália. Em 1905 redigiu e imprimiu O Chinó, jornal satírico da vida escolar, que o pai o impediu de continuar, por considerar a publicação demasiado satírica. Em 1907 participou, como actor, numa récita a favor das vítimas do incêndio da Madalena, e no ano seguinte colaborou, com pequenos contos, na revista Azulejos. Transferido, em 1909, para o Liceu Camões, escreveu, em colaboração com Thomaz Cabreira Júnior (que viria a suicidar-se no ano seguinte), a peça Amizade. Impressionado com a morte do amigo, dedicou-lhe o poema A Um Suicida, 1911. Matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra em 1911, mas não chegou sequer a concluir o ano. Iniciou, entretanto, a sua amizade com Fernando Pessoa e seguiu para Paris, com o objectivo de estudar Direito na Sorbonne. Na capital francesa dedicou-se sobretudo à vida de boémia dos cafés e salas de espectáculo, onde conviveu com Santa-Rita Pintor e escreveu, de parceria com António Ponce de Leão, em 1913, a peça Alma. Em 1914, publicou A Confissão de Lúcio (novela) e Dispersão (poesia). No ano seguinte, durante uma passagem por Lisboa, começou, conjuntamente com os seus amigos, em especial Fernando Pessoa, a projectar a revista literária que se viria a publicar com o nome de Orpheu. Nesse mesmo ano, o pai partiu para a então cidade de Lourenço Marques e Sá-Carneiro voltou para Paris, regressando novamente a Portugal, com passagem por Barcelona, após a declaração da guerra. Depois de algum tempo passado na Quinta da Victória, voltou a Lisboa, onde conviveu com outros literatos nos cafés, alguns dos quais membros do grupo ligado à revista Orpheu, cujo primeiro número, saído em Abril de 1915 e imediatamente esgotado, provocou enorme escândalo no meio cultural português. No final do mesmo mês, publicou Céu em Fogo. Em Julho desse ano saiu o Orpheu 2 e, pouco depois, Sá-Carneiro regressou a Paris, de onde escreveu a Fernando Pessoa comunicando a decisão do pai de não subsidiar o número 3 da revista. Agravaram-se, por esta altura, as crises sentimentais e financeiras do poeta (já por várias vezes tinha escrito a Fernando Pessoa comunicando o seu suicídio). Sá-Carneiro suicidou-se, com vários frascos de estricnina, a 26 de Abril de 1916, num Hotel de Nice, suicídio esse descrito por José Araújo, que Mário Sá-Carneiro chamara para testemunhar a sua morte. Deixou a Fernando Pessoa a indicação de publicar a obra que dele houvesse, onde, quando e como melhor lhe parecesse. Como escritor, Mário de Sá-Carneiro demonstra, na fase inicial da sua obra, influências do decadentismo e até do saudosismo, numa estética do vago, do complexo e do metafísico. Aderiu posteriormente às correntes de vanguarda do paúlismo, do sensacionismo e do interseccionismo, apresentadas por Fernando Pessoa. O delírio e a confusão dos sentidos, marcas da sua personalidade, sensível ao ponto da alucinação, com reflexos numa imagística exuberante, definem a sua egolatria, uma procura de exprimir o inconsciente e a dispersão do eu no mundo. Este narcisismo, frustrada a satisfação das suas carências, levou-o a um sentimento de abandono e a uma poesia auto-sarcástica, expressa em poemas como Serradura, Aqueloutro ou Fim, revendo-se o poeta na imagem de um menino inútil e desajeitado, como em Caranguejola. A sua crise de personalidade, que se traduziu no frenesim da experiência sensorial e no desejo do extravagante, foi a da inadequação e da solidão, da incapacidade de viver e de sentir o que desejava (veja-se o poema Quase), que o levou a uma tentativa de dissolução do ser, consumada na morte. Para além das obras já referidas, foi autor da colectânea de contos Princípio (1912), de que se destaca O Incesto, e do volume póstumo Indícios de Ouro (1937). As suas Cartas a Fernando Pessoa foram reunidas em dois volumes, em 1958 e 1959.

Edgar Allan Poe III




Linhas Sobre a Cerveja


Cheio de espuma e âmbar misturados

Esvaziarei este copo novamente

Visões as mais hilariantes embarafustam

Pela alcova de meu cérebro

Pensamentos os mais curiosos fantasias as mais extravagantes

Ganham vida e se dissipam;

O que me importa o passar das horas?

Hoje estou tomando cerveja.


Edgar Allan Poe (1809-1849)*

* Escritor norte-americano nascido a 9 de Janeiro de 1809, em Boston, e falecido a 7 de Outubro de 1849. Filho de dois actores de Baltimore, David Poe Junior e Elizabeth Arnold Poe, ficou órfão com apenas dois anos de idade e desde cedo aprendeu a sobreviver sozinho. Foi adoptado por uma família de comerciantes ricos de Richmond, de quem recebeu o apelido Allan.Entre 1815 e 1820, a família Allan viveu em Inglaterra e na Escócia, onde Poe recebeu uma educação tradicional, regressando depois a Richmond. Poe foi para a Universidade da Virgínia em 1826, onde estudou grego, latim, francês, espanhol e italiano, mas desistiu do curso onze meses depois por causa do seu vício do jogo e do álcool. Resolveu então ir para Boston, onde publicou em 1827 um fascículo de poemas da juventude de inspiração byroniana, Tamerlane and Other Poems.Em 1829 publicou o seu primeiro volume de poemas, com o título Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems, onde se denota a influência de John Milton e Thomas Moore. Foi então para Nova Iorque, onde publicou outro volume, contendo alguns dos seus melhores poemas e onde se evidencia a influência de Keats, Shelley e Coleridge.Em 1835 estreou-se como director do jornal Southern Literary Messenger, em Richmond, onde se tornaria conhecido como crítico literário, mas veio a ser despedido do seu cargo alegadamente por causa do seu problema da bebida. O álcool viria aliás a ser o estigma que marcaria toda a sua vida até à morte. Casou-se nesse mesmo ano com a sua prima de apenas treze anos, Virgínia Clemm, e o casal resolveu então instalar-se em Nova Iorque, onde não chegou a permanecer muito tempo. Foi em Filadélfia que Poe alcançou fama através de vários volumes de poemas e histórias de mistério e de terror. Em 1838 escreveu The Narrative of Arthur Gordon Pym (A Narrativa de Arthur Gordon Pym), obra de prosa em que combinou factos reais com as suas fantasias mais insanes. Em 1839 tornou-se co-director do Burton's Gentleman's Magazine em Filadélfia, e nesse mesmo ano escreveu várias obras que o tornaram famoso pelo seu estilo de literatura ligado ao macabro e ao sobrenatural. São elas William Wilson e The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher). A primeira história policial surgiu apenas em 1841, na revista Graham's Lady's and Gentleman's Magazine, sob o nome The Murders of the Rue Morgue (Os Crimes da Rue Morgue), e em 1843 Poe recebeu o seu primeiro prémio literário com a obra The Gold Bug. Em 1844 regressou a Nova Iorque e tornou-se subdirector do New York Mirror. Na edição de 29 de Janeiro de 1845 deste jornal surgiu o poema The Raven (O Corvo), com o qual Poe atingiu o auge da sua fama nacional.Dois anos mais tarde morre a sua mulher Virgínia, mas Poe volta a casar, com Elmira Royster, em 1849. Porém, antes disso, Poe publica Eureka, uma obra que deu azo a muita contestação por parte de alguns críticos da época e que é considerada uma dissertação transcendental sobre o universo, muito louvada por uns e detestada por outros.É de regresso à terra natal do seu pai que Poe começa a apresentar indícios de que o problema do alcoolismo já era de certo modo irreversível. De facto, ele esteve na origem da morte do poeta. A obra de Poe é o espelho da sua vida conturbada e dos seus hábitos e atitudes anti-sociais, que o levavam a ter uma escrita que ia para além dos padrões convencionais. Se por um lado foi vítima de certas circunstâncias que estavam para além do seu controle, como foi o facto de ter ficado órfão aos dois anos de idade, por outro fez-se escravo de um problema - o álcool - que agravaria a sua personalidade já de si inconstante, imprevisível e incontrolável.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Poesia de Mário de Sá-Carneiro III



Além-tédio


Nada me expira já, nada me vive ---

Nem a tristeza nem as horas belas.

De as não ter e de nunca vir a tê-las,

Fartam-me até as coisas que não tive.


Como eu quisera, enfim de alma esquecida,

Dormir em paz num leito de hospital...

Cansei dentro de mim, cansei a vida

De tanto a divagar em luz irreal.


Outrora imaginei escalar os céus

À força de ambição e nostalgia,

E doente-de-Novo, fui-me Deus

No grande rastro fulvo que me ardia.


Parti. Mas logo regressei à dor,

Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:

A quimera, cingida, era real,

A própria maravilha tinha cor!


Ecoando-me em silêncio, a noite escura

Baixou-me assim na queda sem remédio;

Eu próprio me traguei na profundura,

Me sequei todo, endureci de tédio.


E só me resta hoje uma alegria:

É que, de tão iguais e tão vazios,

Os instantes me esvoam dia a dia

Cada vez mais velozes, mais esguios...


Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)*


* Escritor português, natural de Lisboa. A mãe morreu quando Sá-Carneiro tinha apenas dois anos e, em 1894, o pai iniciou uma vida de viagens, deixando o filho com os avós e uma ama na Quinta da Victória, em Camarate. Em 1900, entrou no liceu do Carmo, começando, então, a escrever poesia. Entretanto, o pai, de regresso dos Estados Unidos, levou-o a visitar Paris, a Suíça e a Itália. Em 1905 redigiu e imprimiu O Chinó, jornal satírico da vida escolar, que o pai o impediu de continuar, por considerar a publicação demasiado satírica. Em 1907 participou, como actor, numa récita a favor das vítimas do incêndio da Madalena, e no ano seguinte colaborou, com pequenos contos, na revista Azulejos. Transferido, em 1909, para o Liceu Camões, escreveu, em colaboração com Thomaz Cabreira Júnior (que viria a suicidar-se no ano seguinte), a peça Amizade. Impressionado com a morte do amigo, dedicou-lhe o poema A Um Suicida, 1911. Matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra em 1911, mas não chegou sequer a concluir o ano. Iniciou, entretanto, a sua amizade com Fernando Pessoa e seguiu para Paris, com o objectivo de estudar Direito na Sorbonne. Na capital francesa dedicou-se sobretudo à vida de boémia dos cafés e salas de espectáculo, onde conviveu com Santa-Rita Pintor e escreveu, de parceria com António Ponce de Leão, em 1913, a peça Alma. Em 1914, publicou A Confissão de Lúcio (novela) e Dispersão (poesia). No ano seguinte, durante uma passagem por Lisboa, começou, conjuntamente com os seus amigos, em especial Fernando Pessoa, a projectar a revista literária que se viria a publicar com o nome de Orpheu. Nesse mesmo ano, o pai partiu para a então cidade de Lourenço Marques e Sá-Carneiro voltou para Paris, regressando novamente a Portugal, com passagem por Barcelona, após a declaração da guerra. Depois de algum tempo passado na Quinta da Victória, voltou a Lisboa, onde conviveu com outros literatos nos cafés, alguns dos quais membros do grupo ligado à revista Orpheu, cujo primeiro número, saído em Abril de 1915 e imediatamente esgotado, provocou enorme escândalo no meio cultural português. No final do mesmo mês, publicou Céu em Fogo. Em Julho desse ano saiu o Orpheu 2 e, pouco depois, Sá-Carneiro regressou a Paris, de onde escreveu a Fernando Pessoa comunicando a decisão do pai de não subsidiar o número 3 da revista. Agravaram-se, por esta altura, as crises sentimentais e financeiras do poeta (já por várias vezes tinha escrito a Fernando Pessoa comunicando o seu suicídio). Sá-Carneiro suicidou-se, com vários frascos de estricnina, a 26 de Abril de 1916, num Hotel de Nice, suicídio esse descrito por José Araújo, que Mário Sá-Carneiro chamara para testemunhar a sua morte. Deixou a Fernando Pessoa a indicação de publicar a obra que dele houvesse, onde, quando e como melhor lhe parecesse. Como escritor, Mário de Sá-Carneiro demonstra, na fase inicial da sua obra, influências do decadentismo e até do saudosismo, numa estética do vago, do complexo e do metafísico. Aderiu posteriormente às correntes de vanguarda do paúlismo, do sensacionismo e do interseccionismo, apresentadas por Fernando Pessoa. O delírio e a confusão dos sentidos, marcas da sua personalidade, sensível ao ponto da alucinação, com reflexos numa imagística exuberante, definem a sua egolatria, uma procura de exprimir o inconsciente e a dispersão do eu no mundo. Este narcisismo, frustrada a satisfação das suas carências, levou-o a um sentimento de abandono e a uma poesia auto-sarcástica, expressa em poemas como Serradura, Aqueloutro ou Fim, revendo-se o poeta na imagem de um menino inútil e desajeitado, como em Caranguejola. A sua crise de personalidade, que se traduziu no frenesim da experiência sensorial e no desejo do extravagante, foi a da inadequação e da solidão, da incapacidade de viver e de sentir o que desejava (veja-se o poema Quase), que o levou a uma tentativa de dissolução do ser, consumada na morte. Para além das obras já referidas, foi autor da colectânea de contos Princípio (1912), de que se destaca O Incesto, e do volume póstumo Indícios de Ouro (1937). As suas Cartas a Fernando Pessoa foram reunidas em dois volumes, em 1958 e 1959.

domingo, 23 de agosto de 2009

Poesia de Mário de Sá-Carneiro II



Caranguejola


Ah, que me metam entre cobertores,

E não me façam mais nada!...

Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,

Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!


Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...

Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...

Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado

Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.


Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.

P'ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...

Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?

Não fui feito p'ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...


Noite sempre p'lo meu quarto. As cortinas corridas,

E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!...

Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor

-P'lo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...


Se me doem os pés e não sei andar direito,

P'ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?

Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.

Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...


De que me vale sair, se me constipo logo?

E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?

Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -

E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...


Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará

P'ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?

Tenham dó de mim. C'o a breca! levem-me p'rá enfermaria -

Isto é: p'ra um quarto particular que o meu pai pagará.


Justo. Um quarto de hospital - higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;

Em Paris, é preferível, por causa da legenda...

De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;

E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo...


Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,

Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.

Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.

Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.


Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)*

* Escritor português, natural de Lisboa. A mãe morreu quando Sá-Carneiro tinha apenas dois anos e, em 1894, o pai iniciou uma vida de viagens, deixando o filho com os avós e uma ama na Quinta da Victória, em Camarate. Em 1900, entrou no liceu do Carmo, começando, então, a escrever poesia. Entretanto, o pai, de regresso dos Estados Unidos, levou-o a visitar Paris, a Suíça e a Itália. Em 1905 redigiu e imprimiu O Chinó, jornal satírico da vida escolar, que o pai o impediu de continuar, por considerar a publicação demasiado satírica. Em 1907 participou, como actor, numa récita a favor das vítimas do incêndio da Madalena, e no ano seguinte colaborou, com pequenos contos, na revista Azulejos. Transferido, em 1909, para o Liceu Camões, escreveu, em colaboração com Thomaz Cabreira Júnior (que viria a suicidar-se no ano seguinte), a peça Amizade. Impressionado com a morte do amigo, dedicou-lhe o poema A Um Suicida, 1911. Matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra em 1911, mas não chegou sequer a concluir o ano. Iniciou, entretanto, a sua amizade com Fernando Pessoa e seguiu para Paris, com o objectivo de estudar Direito na Sorbonne. Na capital francesa dedicou-se sobretudo à vida de boémia dos cafés e salas de espectáculo, onde conviveu com Santa-Rita Pintor e escreveu, de parceria com António Ponce de Leão, em 1913, a peça Alma. Em 1914, publicou A Confissão de Lúcio (novela) e Dispersão (poesia). No ano seguinte, durante uma passagem por Lisboa, começou, conjuntamente com os seus amigos, em especial Fernando Pessoa, a projectar a revista literária que se viria a publicar com o nome de Orpheu. Nesse mesmo ano, o pai partiu para a então cidade de Lourenço Marques e Sá-Carneiro voltou para Paris, regressando novamente a Portugal, com passagem por Barcelona, após a declaração da guerra. Depois de algum tempo passado na Quinta da Victória, voltou a Lisboa, onde conviveu com outros literatos nos cafés, alguns dos quais membros do grupo ligado à revista Orpheu, cujo primeiro número, saído em Abril de 1915 e imediatamente esgotado, provocou enorme escândalo no meio cultural português. No final do mesmo mês, publicou Céu em Fogo. Em Julho desse ano saiu o Orpheu 2 e, pouco depois, Sá-Carneiro regressou a Paris, de onde escreveu a Fernando Pessoa comunicando a decisão do pai de não subsidiar o número 3 da revista. Agravaram-se, por esta altura, as crises sentimentais e financeiras do poeta (já por várias vezes tinha escrito a Fernando Pessoa comunicando o seu suicídio). Sá-Carneiro suicidou-se, com vários frascos de estricnina, a 26 de Abril de 1916, num Hotel de Nice, suicídio esse descrito por José Araújo, que Mário Sá-Carneiro chamara para testemunhar a sua morte. Deixou a Fernando Pessoa a indicação de publicar a obra que dele houvesse, onde, quando e como melhor lhe parecesse. Como escritor, Mário de Sá-Carneiro demonstra, na fase inicial da sua obra, influências do decadentismo e até do saudosismo, numa estética do vago, do complexo e do metafísico. Aderiu posteriormente às correntes de vanguarda do paúlismo, do sensacionismo e do interseccionismo, apresentadas por Fernando Pessoa. O delírio e a confusão dos sentidos, marcas da sua personalidade, sensível ao ponto da alucinação, com reflexos numa imagística exuberante, definem a sua egolatria, uma procura de exprimir o inconsciente e a dispersão do eu no mundo. Este narcisismo, frustrada a satisfação das suas carências, levou-o a um sentimento de abandono e a uma poesia auto-sarcástica, expressa em poemas como Serradura, Aqueloutro ou Fim, revendo-se o poeta na imagem de um menino inútil e desajeitado, como em Caranguejola. A sua crise de personalidade, que se traduziu no frenesim da experiência sensorial e no desejo do extravagante, foi a da inadequação e da solidão, da incapacidade de viver e de sentir o que desejava (veja-se o poema Quase), que o levou a uma tentativa de dissolução do ser, consumada na morte. Para além das obras já referidas, foi autor da colectânea de contos Princípio (1912), de que se destaca O Incesto, e do volume póstumo Indícios de Ouro (1937). As suas Cartas a Fernando Pessoa foram reunidas em dois volumes, em 1958 e 1959.